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EDUARDO CARDOSO
"Que bom que estás aqui, de novo! Vamos realimentar
as nossas saudades, restaurá-las ali e acolá,
retocar algumas tintazinhas, pois há longos meses não
nos vemos. Carta, bilhete, recado e telefonema não nos
bastam. E além do mais, os inefáveis fantasminhas
do passado exigem muito de nós. Por isso, inventamos
aquele jeito de aumentar a nossa saudade quanto mais nos aproximamos.
Claro, sei que é difícil para os outros entenderem
tal equação: distância menor - saudade maior!
Um dia, lembras, desafiei-te a que pitasses algo com as cores
da saudade e tu me respondeste que as cores tu as poderias captar
e aprisionar numa palheta, mas que ninguém possui pincel
ou espátula capaz de fixá-las numa tela! Depois
de longas conversas, temperadas apenas pelos atrozes silêncios
do Harry, decidimos que devemos, sempre que possível,
brincar de roda com os nossos abantesmas. Eles nos ajudam a
reagrupar as lembranças e as reminiscências!
Iberê: a nossa cidade ainda é quase a mesma.
Os homens, as coisas, as casas e os gestos é que mudaram.
O teu velho e lírico Liceu de Artes e Ofícios
agora é escola de ensino dinâmico, justo ao preceito
do momento. Os colégios modernos comprimem o ensino
em veredas de adivinhações e aprendizado subliminar,
que maltratam a geração de hoje e a do amanhã.
A escola moderna nem sequer expulsa mais alunos travessos
e peraltas como tu. Recupera-os nas salas de orientação
para depois enterr´-los num cemitério de cruzes
e assombros! Se a nossa Avó Chica Padroni (que o seu
Deus a tenha junto dos seus três maridos!) fosse viva,
renegaria, irada, os sintéticos e os erzatz da nossa
alimentação toda envelopada e plastificada.
A Avó Chica que vendia, no bairro Itararé, a
melhor manteiga da Serra, desde Cruz Alta até Cachoeira,
salgando-a com ternura nos bojudos tarros - desfaleceria ante
os ignóbeis lambuzos da soja que nos impingem todo
o santo dia! E, por falar do Itararé, cenário
fumacento e inesquecível da nossa adolescência,
assomam à lembrança aqueles dois homens de meia-idade,
bonitos e bem falantes, que eram o teu irmão Corbiniano
e o meu pai Etelvino, mulherengos incorrigíveis. Passeavam
de baratinha Ford bem longe das vistas dos invejosos que não
lhes perdoavam os atrevimentos. E o interessante, lembras,
é que, quanto mais longe eles iam, mais ousados ficavam!
Corbiniano tinha o perfil de Thomaz Meighan, e tu parecias,
às vezes, com o William Hart. Eu, pobre de mim, nunca
me pareci com artista nenhum! Vejo-te, Iberê, quando
largavas os pincéis no teu quartinho de tábua
machambrada, e te dirigias pro outro lado da rua, no rumo
dos chilros e trinados da linda Clélia, soprano de
mil encantos e beldade rafaelina. Alto e desajeitado, te escoravas
no muro da sua casa, menos para escutar os maviosos gorjeios
do que para vislumbrar o belo perfil da formosa diva com aqueles
cabelos de deusa grega! Depois, vinham as matinês do
Coliseu, com a passagem obrigatória antes pelos tabuleiros
da velha preta Tia Juana, quituteira de doçuras inenerráveis.
No cinema, ainda com as luzes acesas, a gente procurava na
platéia o fulgor dos olhos bonitos das mademoiselles,
e pelas frestas dos camarotes, a gente buscava nacos de pernas
bem torneadas, colos arfantes e róseos que, somados
à pudibundas insinuações das banhistas
de Mack Sennett na tela, construíam o imaginoso paraíso
dominical dos guris e fedelhos já de pinto empinado.
(Claro, quando davam fita de Valentino ou Wallace Reid, os
róseos colos arfavam mais agitadamente!).
Depois, veio a experiência aterrorizante do bombardeio
indiscriminado da cidade, desvairada aventura dos irmãos
Etchegoyen, precipitados artilheiros sem norte nem sul. O
susto oi tão grande que sequer pudemos fingir que éramos
Tom Mix ou Art Accord para acudir, como heróis, em
socorro do Coronel Barão, que teve de derrotar sozinho
os rebeldes, sem ajuda da nossa fantasia! Todavia, eu fiz
a concessão de achar que o valente Coronel Anibal Barão
era a cópia fiel do William Desmond - o "Cavaleiro
Fantasma" - seriado no qual o mocinho tinha o seu esconderijo
no tronco duma velha árvore, onde ele entrava com cavalo
e tudo, imagina! Pouco mais tarde, a sucessão de Washington
Luiz começava a mexer também com os gurizotes
que acorriam aos comícios para ouvir os condoreiros
da oratória gaúcha, tonitruantes e alcandorados!
Recordas-te quando nos espremíamos defronte às
sacadas do Café Guarany e da União dos Viajantes
para ouvir Oswaldo Aranha, Flores da Cunha, Batista Luzardo,
João Neves, Getúlio Vargas (meio fracote, mas
que simpatia!), Barros Cassal, Lindolfo Collor e tantos outros?
Pena foi que a gente nunca pôde ouvir, naquela campanha
eleitoral, os do outro lado, pois eles nem chegaram aqui!
Na eleição, Getúlio fez quase seis mil
votos contra cento e pouco de Júlio Prestes. Uma lavagem,
como se dizia então.
Em seguida, aconteceu a enorme Revoluão de 30, majestoso
espetáculo com hora certa e finalidades às vezes
incertas. O levante nos conduzia todos os dias à beira
da linha férrea, nos fundos da casa da Avó Chica,
para contemplar, com os olhos compridos de inveja, os trens
com tropas que subiam a Serra no afã de derrotar o
Cavanhaque e seus sequazes. Os soldados sorriam, faziam estrépito
e atoarda, cantavam e jogavam cigarros e biscoitos para a
gente. Na cidade, improvisavam-se regimentos com valentes
"provisórios" que acampavam nos subúrbios,
sempre recebendo mais provisões do que armamento. Batalhões
regulares de infantes e baterias de tiro pesado enchiam os
comboios. Os ferroviários, cheios de ardor e paixão
patriótica, tornaram viável uma revolução
que tinha bastante de improviso e algo de imprevisível.
Eles planejaram e transportaram, com eficiência, os
belicosos jovens de lenços coloridos no rumo duma revolução
feita para regenerar os costumes... que não terminou
até hoje! Mas a roda do tempo andava, e já o
futebol nos envolvia, oferecendo-nos ídolos como Tatu,
Pedroso, Caiaffo, Ratão, Bereta e tantos outros que
rilhavam no clube da nossa preferência, o Rio-grandese.
No fim da Revolução, já nos últimos
de dezembro, os nossos ídolos deram uma surra no time
uruguaio Olímpia, que ostentava sete ou oito campeões
do mundo: Ballesteros, Nazzari, Mascheroni, Géstido,
Andrade, Dorado, Scarone e outros. Lavamos a égua,
perdão, a alma!
E o tempo passava cada vez mais depressa. O Armênio
Morais (Taxinha) foi pra Europa estudar, enviado pelos fabulosos
irmãos Manuel e Augusto Ribas. Tu foste para Jaguari.
O Nando foi ser ferroviário. O Harry Albertani viajou
um dia para dentro de si mesmo, e raramente sai. Eu, então
com a barba espigando fio a fio, tipo um grita outro não
ouve, e com a cara cheia de espinhas, passei a ir inevitavelmente
para a rua Dr. Pantaleão, fazer a ronda dos pecaminosos
estabelecimentos que infestavam, no mais amplo sentido, a
Zona. Em Jaguari, tu desenhavas pontes, aclives e taludes,
aperfeiçoando-te às regras inflexíveis
do desenho, iniciando a trajetória admirável
que te levaria ao curso de arquitetura do Instituto de Belas
Artes de Porto Alegre, depois à oportuníssima
bolsa que o nosso querido Cordeiro de Farias te concedeu e,
por fim, ao Prêmio de Viagem e à consagração
da Bienal. E dali para Bruxelas, Londres e Paris! Baita sucesso,
tchê!
Claro, irmão, temos bastante para assuntar, pois não
falamos ainda de tanta gente: de Picucha, da Negra Bua, do
Vicente Ila Font e suas marmeladas e goiabadas, do Paulino,
o entregador de manteiga, da Leda Monteiro, bela entre as
belas, da Negra Corrucha, do teu professor Parlagrecco, da
eterna Senhorinha Vicentina Mallet, das preguiças infinitas
do Potiguara, do afligido Bicca, do Tio Pedro (Tio Pin, para
as crianças), dos Borin e dos Scotti, nobres bodegueiros
de fiado-e-caderno e corações do tamanho duma
locomotiva Mikado. Caberia, também, uma prosinha sobre
os carrancudos e eficientes Maristas, também sobre
o Manlio Filizzola, duma vocação irreprimível
que o fez morrer, feliz como Brigadeiro. Nestas alturas, deve
estar fazendo alguma rota celestial, talvez a ponte-aérea
Purgatório-Paraíso! Ah! Não falamos das
tuas notas na escola! O quê? Não é para
falar nisso? Bem, não se fala mais...
Abraços e beijos para ti e para a Maria."
Maio de 1984
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