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MÁRIO CARNEIRO
"Conheci Iberê e Maria em Paris em 1948-49. Foi Vera
Mindlin quem nos apresentou, tentando quebrar minha timidez
de adolescente esquivo.
Fazia frio em Paris, andávamos de casacão, olhando
os museus ainda mal aquecidos, acompanhando o Prof. Poliakof,
assistente de André Lhote e obsessivo admirador de
Cézanne.
Iberê já voltara da Itália, do aprendizado
com De Chirico, considerado então o reformista do Modernismo,
com sua volta a Rubens, depois de abandonar as paisagens metafísicas.
Era a época em que os "ismos" proliferavam,
o após-guerra dos oportunistas, a retomada confusa
do mercado de arte.
O olhar de Iberê via por dentro dos quadros, as camadas
sobrepostas, querendo virar raio X, saber, saber tudo. E anotava
no ato o que lhe parecia de interesse, com a humildade que
os que querem saber têm de ter.
Fomos ficando amigos, tomando café em Montparnasse
com seu metrô de sete saídas, onde inexoravelmente
me perdia.
Ali perto, o hotel onde Maria usava um fogareiro a àlcool
para o cafezinho. Uma vez quase incendiou o hotel.
Falávamos discretamente da vida e despudoradamente
da pintura.
Um dia, Iberê voltando do Louvre com olhar saciado
disse: "Tchê, estou doido para chegar na Lapa,
abrir o ateliê e começar a trabalhar!" Já
havia recolhido as informações de que necessitava
e estava pronto para a luta. Mesmo assim, ainda ficou quase
um ano trabalhando com André Lhote.
Demorou mas chegou. Enfim, a Lapa, o pequeno apartamento
da Rua Joaquim Silva, meio escuro, a luz entrando pela área
de serviço. Mas logo este espaço aparentemente
tão desinteressante foi sendo desvendado e iluminado
pelo olhar do pintor, o tanque de roupa, a área de
serviço brilhavam sob um sol que trazia ainda a leitura
de De Chirico e o severo rigor de André Lhote, manipulados
pela febre de Iberê. Como eram lindos estes quadros
que vinham impregnados de viagem, saíam como primeiros
filhos longamente esperados!
As naturezas mortas, o cheiro dos peixes se deteriorando
intocados, as mangas verdes que hoje estão na sala
de D. Graciana M. F. Andrade.
De dentro para fora, depois do ateliê, as ruas de Santa
Teresa buscando fundir nossa luz com a dos céus de
Roma. Um pouco da Lapa também.
A igrejinha, as ladeiras, sinto até hoje o cheiro
de tinta que no final da tarde, quando os quadros eram olhados
e "julgados", enchia o ateliê.
Depois, a gravura sobre o metal invadia o espaço com
sua parafernália: prensa, ácidos, placa. Tintas,
papéis, tudo, sempre na mais perfeita ordem e limpeza.
Mumca um pincel sujo para o dia seguinte.
Outros alunos de gravura apareceram: Anna Letícia,
Sued, Vera, até o mestre Goeldi fez suas incursões
no metal sob a orientação de Iberê.
Tivemos a sorte de receber repassadas as lições
que Iberê minuciosamente anotara em sua viagem. Com
a vantagem da escola ser risonha e franca, com direito a chimarrão
no final do dia."
1985
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