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  DÉCIO FREITAS

"Costumava o historiador Lucien Lebvre prevenir seus colegas de ofício contra a mendacidade dos documentos escritos. Os documentos, dizia ele, nem sempre dizem a verdade; mentem tanto quanto os homens que os fizeram. Aproveitando a deixa, Arnold Toynbee sustentava que a melhor fonte para estudar a civilização é a arte: "Ela sempre diz a verdade sobre a história das civilizações: não há fonte mais confiável e fidedigna que a literatura, a pintura, a escultura, a música. Isso porque a arte não é feita por homens, mas por semideuses."

Penso que o historiador do futuro que quiser compreender a civilização ocidental no fim do século XX, encontrará na obra de Iberê Camargo uma das fontes mais eloqüentes e comoventes. Na vasta produção do artista, destaco um aspecto de sua obra mais recente.

O que é que se vê em alguns destes quadros? Penso que espelham, em toda sua extensão, a tragédia da solidão do homem neste aterrador limiar da pós-modernidade. Nas tintas fortes, vislumbra-se o homem só no mundo - um mundo cada vez mais feito de desertos emocionais e barbáries tecnológicas.

Pois a era da comunicação é, simultaneamente, a da solidão; o bem-estar material se faz acompanhar do mal-estar cultural. Nos quadros de Iberê, aparece o homem abandonado, dilacerado e deseperado - num gulag cultural. Emerge a insidiosa ruína da vida corrompida por cegas e malignas forças destrutivas. A visão que o artista tem deste momento histórico é realçada pela presença freqüente de idiotas. Já vi gente voltar o rosto para não sentir aquela obscena miséria espiritual. O que de resto não perturba o artista: diz que não pinta para agradar.

Mas esta visão de uma humanidade desenganada não provém de um pessimismo pessoal, nem ele se compraz com a tragédia. A criação é por natureza otimista e se pode entrever a compaixão de Iberê. Apenas expressa esteticamente uma verdade.

Misteriosa peculiariedade da arte: à medida que transmite sua visão do feio numa linguagem de impressionante beleza, o artista nos dá um suplemento de alma que permite empreender o resgate da velha alma seqüestrada pelo monstro tecnológico. Nunca, em toda sua história, o homem precisou tanto de arte; nela reside uma das senhas para que se reencontre. "L'art, la seule chose vraie et bonne de la vie". Se naqueles tempos otimistas de Flaubert a arte já era a única coisa verdadeira e boa da vida, o que diremos nós nesta hora de desintegração da cultura ocidental?

Os retratos pintados por Iberê desvendam uma fantástica acuidade psicológica. O poderoso criador é também um poderoso pensador. Não conheço hoje no Brasil muitas consciências tão lúcidas. Sua inteligência perturba e ofusca. Mais: Iberê diz tudo, absolutamente tudo, o que pensa e sente.

Não há nele arrière-pensée. A reflexão crítica se manifesta em textos avulsos, em "charges" e em fascinantes "causeries", mas teremos uma percepção mais completa nas memórias que está escrevendo e num livro-entrevista a ser breve publicado. Ele não compreende como é que intelectuais hoje silenciam diante do "cupim que deu na pátria amada", na qual "estamos sobrando". Na verdade, sua implacável crítica à situação do país - suas elites e seu povo - é uma manifestação de amor pelo ofendido e humilhado Brasil.

Não é nunca resignado; é sempre um indignado. Aos 80 anos, preserva, intacta e permanente, a capacidade de se indignar através de um discurso irreverente, metafórico e anticonformista contra as bastardias culturais, os infernos sociais e as depravações políticas. Não suporta máscaras e está sempre empenhado em arrancá-las.

Não faz muito, o crítico Augusto Massi afirmou que Iberê é uma caso raro de um grande pintor que é também um notável escritor. Não há dúvida: a pintura arrebatou à literatura um escritor. Os contos já publicados, os textos avulsos em jornais e o livro ainda inédito de contos escritos em italiano (estão sendo traduzidos para o português, já que a edição será bilíngue) dão testemunho de um talento que domina a palavra de forma tão magistral quanto o pincel. Francamente, não há hoje no Brasil muitos textos que se lhe comparem em qualidade literária.

A idade e a enferrmidade não estancam a assombrosa força criadora de Iberê; ele pinta e escreve incansavelmente. Estamos diante de uma força da natureza.

Quanto ao homem Iberê, mantém a integridade, a coragem e a independência que se tornaram legendárias e resplandecem em toda sua personalidade. Nisso, uma das peculiaridades de Iberê: o grande artista é também um grande homem. As duas coisas nem sempre andam juntas, pois, com demasiada freqüência, um grande artista é um pequeno homem. Grande Iberê: grande como artista, grande como pensador, grande como homem.

Somos-lhe gratos pelo mundo de verdade e beleza que nos dá num mundo de mentira e lealdade."
 
 
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