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Dédale - uma filme-instalação de Pierre Coulibeuf
Instruções para um cinema de indeterminação
Dédale é um filme-instalação do artista e cineasta Pierre Coulibeuf que leva o mesmo título do filme do qual se originou. Realizado em 35 mm, Dédale foi comissionado pela Fundação Iberê Camargo e filmado em diversas locações em Porto Alegre.
A obra de Coulibeuf desafia as convenções cinemáticas e produz uma crítica dos métodos produtivos do cinema, ao mesmo tempo em que situa a obra nos limites das disciplinas artísticas, como o filme, as artes visuais, a performance e a literatura. Nesse processo, há um sistemático questionamento dos mecanismos de representação com vistas a propiciar alternativas para uma investigação do conceito de realidade. O artista utiliza a criação contemporânea como matéria de sua obra, explorando questões como o duplo, o simulacro, a metamorfose, os universos labirínticos e a realidade como ficção ou projeção mental. Trabalhando com o que podemos chamar de “ficção experimental”, as obras de Coulibeuf rejeitam o enquadramento entre gêneros e expandem os limites de percepção da imagem em movimento. Através de suas instalações, mostradas em espaços de exposições, Coulibeuf busca instituir novas possibilidades da experiência cinemática para além do espaço contemplativo da convencional sala de cinema. O que vemos em sua obra é um recorrente processo de desconstrução do aparato cinemático.
Dédale é uma obra inspirada no universo artístico e criativo de Iberê Camargo (1914-1994). A obra de Camargo aparece aqui como um “núcleo em expansão”, proporcionando também o desenvolvimento formal e conceitual do filme, gerando uma oscilação constante entre o claro (do prédio de Álvaro Siza), o escuro (das pinturas do artista) e a transição entre os dois âmbitos através da figura de Ariadne. O enquadramento das pinturas em Dédale evidencia o movimento e a instabilidade das formas presentes nas obras de Iberê e sua disposição nas paredes do prédio de Siza, ora oblíquas, ora recuadas ou em expansão. Essa distorção e esse desequilíbrio do olhar, visíveis no enquadramento de câmera, encontram eco no desenho das janelas, as quais mostram que tudo está em movimento nesse lugar. A exposição das obras de Iberê Camargo que pode ser vista no filme foi concebida pela curadoria, juntamente com o artista, exclusivamente para a filmagem de Dédale. Realizada com obras da Fundação e diversas coleções do país, seu caráter ficcional adquire um perfil cinemático cujo percurso produzido pelo filme pode ser reconstruído mentalmente, situando-a numa zona de transição entre ficção e realidade.
O caráter ficcional de Dédale evoca a história mitológica de Dédalo e seu labirinto, construído para aprisionar o Minotauro. A forma singular e labiríntica do prédio de Álvaro Siza é utilizada por Coulibeuf para criar sua estrutura e sua configuração cinemática. Os personagens do filme estão envolvidos em uma espécie de busca cujo objetivo parece ser aquele de se ancorarem na estrutura narrativa do filme e existirem nele como personagens de acordo com convenções cinemáticas. Nessa busca, eles inconscientemente depositam suas expectativas nas figuras arquetípicas de Ariadne e Teseu, reencenando, numa versão contemporânea da narrativa, o mito do eterno retorno. Assim, os dois personagens da história são evocados no filme através das performances das figuras feminina e masculina que colocam em movimento a energia geradora da obra através da organicidade arquitetônica do prédio de Siza.
Dois universos coexistem paralelamente em Dédale: aquele da realidade, vivenciada pelo casal na vida real, e aquele de Ariadne, que pertence ao espaço mental. Em uma estranha relação que permanece indeterminada, eles se movem através do espaço do museu numa circularidade que reproduz o espaço labiríntico do prédio - dentro e fora dele. “O mundo é redondo”, diz a personagem feminina, cujo duplo é representado pela figura de Ariadne, espécie de projeção que se materializa a partir de uma progressiva perda de identidade da personagem que lhe deu origem. Em sua busca pela saída do labirinto, Ariadne encontrará o Minotauro (até que ela mesma se transforme no monstro), sendo, nesse trajeto, animada insistentemente pelo espírito criativo de Camargo. Labirintos são estruturas que metaforicamente representam caminhos de aprendizado. Ao percorrer sua trajetória em busca de uma saída, o indivíduo deve fazer múltiplas escolhas que requerem intuição e interpretação, assim como tomar decisões que envolvem julgamento. São essas decisões que, em última análise, definirão seu próprio destino.
Dédale é uma construção circular e descentrada que oferece múltiplas vias interpretativas. Ela é composta por três projeções e fotografias originadas de duas fontes do negativo: os disparos de câmera e as sobras de cópia, não utilizadas na edição final do filme. A partir dessas fontes e da quebra da narrativa, é possível formar sequências originais que abrem uma série de intervalos com vistas a criar também um espaço de participação para o espectador, que pode preencher os vazios com outras versões da história. Nesse processo, o conceito de realidade, de lógica e de continuidade narrativa dá lugar à indeterminação. O fio de Ariadne não representa, portanto, a ficção que comumente conhecemos como continuidade cinemática.
Continua...
Gaudêncio Fidelis
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