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Cálculo da expressão: gravuras de Goeldi, Segall e Iberê Camargo
De maneira geral, pensamos na arte de vertente expressionista como o resultado de uma manifestação de sentimentos, especificamente de dor. É claro que isso não é de todo errado, visto que na obra expressionista, no lugar de uma representação do mundo tal como este nos aparece, surgem imagens de uma realidade profundamente sentida, modificada de acordo com a subjetividade do artista. No entanto, a linguagem da arte – e mais particularmente da gravura – requer, para sua concretização em objeto artístico, um elaborado cálculo expressivo e formal.
É por isso que decidimos chamar esta mostra de gravuras de Oswaldo Goeldi, Lasar Segall e Iberê Camargo de "Cálculo da expressão". Talvez a própria gravura, com toda a artesania envolvida em seus processos de impressão, seja paradigmática da maneira como esses artistas, comumente qualificados como expressionistas, realizam suas operações artísticas para conseguir dar forma a uma realidade subjetiva. Afinal, o resultado da gravura está impregnado de todos os procedimentos envolvidos em sua confecção, em razão de o longo tempo de trabalho manual impor uma distância com relação à situação experimentada pelo artista e a necessidade de um cálculo preciso de suas potencialidades expressivas e possibilidades técnicas.
Oswaldo Goeldi, apesar de ter nascido e passado a infância no Brasil, faz sua formação artística na Suíça, na década de 1910. Seus desenhos dessa época mostram a influência decisiva do expressionismo imaginativo e simbólico de matriz germânica. O retorno ao Brasil em 1919 coloca-lhe um problema: como lidar com a nova paisagem física e social sem abrir mão do traço nervoso e conciso? Como incorporá-la a seu repertório artístico sem se perder no particularismo descritivo? A solução lhe aparece com o aprendizado da gravura, em 1923, sob a orientação do artista Ricardo Bampi, nascido em São Paulo e formado na Alemanha, e Goeldi imediatamente passa a explorar a potência expressiva da xilogravura. Sobre madeiras pequenas, geralmente recolhidas ao acaso, de espessuras e formatos variados, traça, com a goiva, contornos de luz, espectrais, para casas, árvores, montanhas, animais, pessoas, cantos de ruas. Com o tempo, os traços se tornam mais econômicos e mais profundos, as matrizes se ampliam de tamanho; a cor é introduzida. Não apenas os temas se tornam a sua marca pessoal – casas, becos, urubus, pescadores –, mas também a linguagem apaixonada e taquigráfica que aprende com a gravura. A madeira confere resistências e dificuldades, exigindo do artista disciplina, esforço e paciência para abrir frestas de luz na matéria sólida.
Lasar Segall, por sua vez, quando chega definitivamente ao Brasil, no mesmo ano de 1923, já trazia na bagagem uma sólida formação como gravador. Na Europa, realizou litografias, xilogravuras e gravuras em metal. Lá, editou três álbuns de gravuras entre 1918 e 1922. Nessas primeiras gravuras percebe-se a eleição de alguns temas fundamentais – as viúvas, os mendigos, a morte, as figuras anônimas, as cabeças de olhos vazados –, bem como a busca de uma linguagem concisa, na qual tem grande valor o vazio. No Brasil, irá utilizar a economia formal da gravura para dar forma às séries de emigrantes e mulheres do Mangue, adaptando seu vocabulário ao novo ambiente. Como Goeldi, Segall percebe na gravura a possibilidade de lidar com essa realidade sem descambar para a descrição realista. Suas obras brasileiras lidam basicamente com a expressão compassiva diante de situações de desenraizamento e marginalidade. De sua experimentação técnica surge uma imagem sintética e universal, retrabalhada pela memória e pela imaginação.
É no Rio de Janeiro, para onde se transfere em 1942, que Iberê Camargo inicia seu aprendizado na técnica da gravura em metal, tendo como mestre o artista austríaco Hans Steiner. Mais tarde, quando viaja para a Europa, estuda gravura com Carlo Alberto Petrucci em Roma. A gravura surge, portanto, no quadro de sua formação como artista moderno, sendo marcada pela vontade de experimentar novas formas, novos procedimentos artísticos. As técnicas da ponta-seca, do buril e da água-forte parecem lhe proporcionar a quantidade necessária de resistência material para que suas imagens adquiram densidade expressiva. Marcar a matriz, utilizar o ácido e os vernizes, prensar o papel – tudo ganha o sentido expressivo de um gesto de vigor e paixão. Em suas gravuras, podemos ver tanto as figuras típicas de sua poética – paisagens, naturezas-mortas, carretéis, ciclistas, manequins, idiotas –, como as mais variadas experiências técnicas e formais, nas quais se percebe o diálogo constante com os seus procedimentos pictóricos.
O rigor artesanal dos três artistas, sua economia formal, a compreensão da potência poética da técnica da gravura são alguns dos elementos que os aproxima, assim como a escolha de determinados temas gerais, advindos da tradição expressionista. O que esta mostra pretende exibir é tanto essa proximidade como aquilo que os especifica e diferencia, desvelando para o público o complexo cálculo que realizam na formalização de obras densas, intensamente expressivas.
Vera Beatriz Siqueira e Fernanda Pequeno da Silva
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