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  Lugares desdobrados

A transferência espetacular das capacidades humanas para os meios tecnológicos, as novas exigências que eclodem das novas noções de subjetividade, de comunidade e da ambiência globalizada na história recente alteram a compreensão de espaço, tempo e lugar. Tais fatos, entre outros, geraram mudanças substanciais nas formas do conhecimento humano e da sua experiência. Neste contexto, os artistas hoje reconhecem essas transformações e as demonstram pelas diversas propostas implicadas na criação de espaços, dos que testam outros modos de apresentar a arte pela diversidade de práticas e materiais. Ao questionarem nossos hábitos visuais e intelectuais, muitos dos trabalhos artísticos nos permitem, entre outros aspectos, repensar a questão “lugar” – o da arte, o da história e o das nossas percepções por meio da própria arte.

Esta exposição tem como eixo principal evidenciar como cada uma das três artistas do Rio Grande do Sul, Elaine Tedesco, Karin Lambrecht e Lúcia Koch, trazem a experiência de lugar. Associam todas a este foco a idéia de desdobramento, presente nas obras de cada uma de maneira profundamente singular.

Em seus três observatórios, Elaine Tedesco traz à luz vários modos de deter o olhar do visitante, de levá-lo a parar para olhar. Nesse processo, ela provoca uma tensão no lugar, como em seu Observatório de pássaros, em que é suspensa a sua função de dar a ver pássaros em uma paisagem. Este trabalho jaz no espaço enclausurado da exposição, onde é subvertida sua operação de observatório: ao contrário, ali este se transforma em obra a ser observada, um lugar que adultera o seu significado original. Esse estranhamento do espaço se desdobra de uma obra para outra, estas sempre nomeadas “observatórios”. Igual peculiaridade ocorre também em suas imagens fotográficas, ora afixadas sobre paredes, ora projetadas sobre pedras róseas e folhagens do jardim, surpreendentes, como fatos que acontecem à noite, a natureza transfigurando-se em telas. Objetos e personagens de outros tempos encontrados em sua obra anterior retornam e reatualizam a experiência, pois os lugares de exposição deixam fluir um outro sentido a cada trabalho, por meio de novos modos de possibilitar o olhar.

Karin Lambrecht, ao desenvolver a prática de pintura e de desenho, desdobra a experiência cultural de lugares. Suas conhecidas obras realizadas a partir da coleta de sangue de carneiros abatidos no Brasil, ao modo do rito judaico, levam a artista a viajar para Israel para realizar o trabalho, em busca das origens desse tipo de acontecimento.

Por relações entre o tempo e a cultura, a obra da artista se desdobra entre lugares: o da coleta de material na Terra Santa e sua elaboração final em Porto Alegre. Pequenas cruzes de algodão translúcidas se banham ao solo, na água com sangue derramado pela lavagem dos animais mortos em Jerusalém e se tornam timidamente róseas de sangue. Elas vêm a compor as límpidas lâminas de acrílico, junto com aquarelas, nas quais se dispõem as repetidas caligrafias da genealogia de Jesus nas suas 77 versões. Na exposição, estas podem se revelar ao público, ao poder ele folhear uma a uma, em contato com o grande arquivo que ali aguarda manuseio. Na regularidade repetitiva e cadenciada desse processo, das origens à atualidade, das culturas e dos lugares, pergunta-se se seria possível, desse modo, recompor o presente, ao se reexaminar a fundo as origens e a nossa história. Lucia Koch, por sua vez, entende seu trabalho como uma resposta à linguagem da arquitetura. Sua obra é um modo de afetar o espectador na ambiência da arte por acontecimentos luminosos, ao provocar alterações na experiência espacial. O trabalho é a interferência da luz, pois propicia, com os filtros de cor que dispõe sobre as entradas da claridade, estados alterados de percepção de lugar. Prevê o todo, irradia pelo espaço arquitetônico as tonalidades cromáticas em negociação com as artistas. Na obra de Lúcia Koch desdobram-se janelas sobre janelas do prédio de Álvaro Siza, ora por recortes ou por filtros aplicados sobre elas. O “dentro e o fora”, assim como o “ver através” se tornam parte fundamental do trabalho, colocando em xeque os hábitos visuais conhecidos de vivência daquela arquitetura.

Assim, por princípios artísticos tão diversos, por vezes antagônicos, da matéria viva à imagem, da filtragem de luz às instalações ou à pintura, as três artistas possibilitam ao público repensar alguns dos veios distintos da arte dos nossos tempos – e, quem sabe por meio deles, aprofundar pensamentos sobre o caráter heterogêneo da experiência cultural contemporânea, esta através de uma discussão permanente dos lugares da arte e de seus desdobramentos, em todo o âmbito das enriquecedoras discussões que esta exposição possibilita. Mônica Zielinsky
 
 
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