Política experimental: organização coletiva e o naufrágio do espectador | com Gabriel Tupinambá

10.set.18

Como parte dos programas públicos da exposição “Caixa-Preta”, o Seminário “Sobre acidentes e caixas-pretas do passado, do presente e do futuro” reúne historiadores, psicanalistas, filósofos, curadores e outros especialistas buscando analisar as relações entre arte, política, ciência e história.

No sábado 29/09, às 14h, Gabriel Tupinambá debaterá o tema “Política experimental: organização coletiva e o naufrágio do espectador”. A fala tem como ponto de partida a citação de Hans Blumenberg, que resumiu na expressão “naufrágio com espectador” a experiência ocidental da contemplação do sublime: Lucrécio, na praia, observando os efeitos destruidores da tempestade – Kant, em Koenigsberg, observando os efeitos da Revolução Francesa. Nosso próprio tempo, no entanto, testemunhou o avanço do mar sobre esse porto-seguro de onde poderíamos contemplar aquilo que é não é feito a nossa medida. Nossa época é, antes, aquela do “naufrágio do espectador”: o mundo que nos constitui é ele mesmo estruturado por forças que não podemos representar – e, enquanto ele segue seu caminho, somos nós, e nossa capacidade de mapear nossa realidade, que sucumbimos perante essa desmedida. Na palestra “Política experimental: organização coletiva e o naufrágio do espectador”, buscaremos reconstruir esse diagnóstico de época, que liga nossas formas de agir, pensar e sofrer ao problema da disjunção de escalas entre processos sociais e o espaço de experiência individual. Apresentaremos, em seguida, os resultados parciais da pesquisa realizada pelo Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia, que trabalha atualmente a hipótese de que as organizações coletivas adquirem um novo papel – de “órgãos sensíveis” da realidade social – sob essas novas coordenadas históricas.

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Seminário “Sobre acidentes e caixas-pretas do passado, do presente e do futuro”

Mesmo quando nenhum acidente acontece, a caixa-preta é uma espécie de secreto e inquietante companheiro de viagem, que sempre está lá, sem que os passageiros saibam muito bem onde, a registrar exatamente o não-acontecimento, mas já aí como entrevisão da possibilidade da catástrofe. Na caixa-preta, coexistem, portanto, informação decisiva (o que realmente aconteceu) e excesso semiótico (o máximo de sinais pode equivaler, na ausência de acidente, ao mínimo de significado).

Este seminário toma a caixa-preta como metáfora para pensarmos as relações entre arte, política, ciência e história – e mais especificamente entre algumas obras de arte e o atual momento político do país e do mundo, mas também entre essas obras e o próprio sistema das artes. É generalizada a percepção de estarmos vivendo um momento de crise (crise política, crise econômica, crise da “representação”, crise dos “valores” etc.), assim como é generalizada também a sensação de uma certa apatia que não seria condizente com a violência dessa crise múltipla. Em que medida, podemos nos perguntar, essa aparente apatia não esconde formas mais sutis de reação e registro, condizentes com uma noção de história – do mundo, mas também da própria arte – como sucessão de acidentes?

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Gabriel Tupinambá possui graduação em Belas Artes pela Central Saint Martins College of Arts and Design, mestrado e doutorado em Filosofia pela European Graduate School e é atualmente pesquisador de pós-doutorado no programa de História Social da Cultura na PUC-Rio. Atua como psicanalista no Rio de Janeiro e é membro do laboratório de organização política Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia. Edita a revista internacional de filosofia e política Crisis and Critique e atua junto a diferentes movimentos sociais, como o Oficina Acadêmica, o Organizando a Vida e o Chega de Descaso. Autor do livro “Hegel, Lacan, Zizek” (Atropos Press, 2013) e de diversas contribuições em livros editados no Brasil e no exterior, atualmente trabalha nas diferentes interseções entre psicanálise, filosofia e política: fundamentos sociais da clínica psicanalítica, articulação entre subjetividade e organização coletiva, filosofia da história e especificidades da condição periférica do capitalismo contemporâneo.

Imagem: Wilfredo Prieto. Caja Negra, 2017. Cortesia da Mendes Wood DM São Paulo, Brussels, New York. Copyright do Artista. Foto Bruno Leão