Iberê Camargo: Diálogos no Tempo

Iberê Camargo: Diálogos no Tempo

EXPOSIÇÃO ANTERIOR

De 09/04/2016 a 29/04/2017

Iberê Camargo: Diálogos no Tempo

CURADORIA Angélica de Moraes

LOCALIZAÇÃO 2o andar

De 9 de abril de 2016 a 26 de março de 2017, a Fundação Iberê Camargo apresenta a exposição Iberê Camargo: Diálogos no tempo. Com curadoria de Angélica de Moraes, a mostra propõe uma investigação sobre a obra de Iberê Camargo no período de seu retorno ao Rio Grande do Sul, nos anos 1980.

Com 116 trabalhos – entre pinturas, gravuras em metal, serigrafias e litografias, desenhos, charges com o pseudônimo de Maqui e estudos para outdoor – a exposição apresenta um recorte intimista, estabelecendo relações entre séries, como Fantasmagorias e Manequins, e obras de períodos anteriores. Dessa forma, a curadora busca identificar características comuns em seus trabalhos, intensamente marcados por sua produção gráfica e pela obstinação pela excelência, mesmo quando a duração de suas obras era efêmera – como nos outdoors presentes na exposição. “É uma investigação sobre o DNA da obra de Iberê Camargo focada no período de retorno ao Rio Grande do Sul, nos anos 1980, quando ele empreendeu uma inflexão em sua obra, com um decisivo retorno à figura humana. Mais do que fazer um recorte do acervo da Fundação Iberê Camargo, desde logo entendi tratar-se de identificar e oferecer ao público algumas chaves de leitura para a fruição da densa e caudalosa produção realizada pelo artista ao longo de mais de meio século de atividade ininterrupta”, diz a curadora e jornalista Angélica de Moraes.

Em Iberê Camargo: Diálogo no Tempo será exibida pela primeira vez a série completa da suíte serigráfica Manequins, inclusive com algumas provas antes da impressão, em que fica evidente a insaciável busca de Iberê pela melhor forma de solucionar um trabalho. Também pela primeira vez a Fundação Iberê irá apresentar a série de desenhos Desastre, em que Iberê retratou carcaças de carros amontoados em um ferro-velho. “Soturnas reflexões sobre a velhice e a obsolescência patrocinada pelo consumismo”, diz Angélica.

Em uma das salas do percurso principal foi situada a documentação fotográfica (making-of) e os estudos para a primeira incursão de Iberê no grande formato dos outdoors, suporte usado por ele para produzir uma releitura apocalíptica da "criação do homem" por Michelângelo, exibida em 1984 nas ruas de Porto Alegre.

Junto a esse trabalho e seus esboços, será exposta uma seleção de 17 charges que o pintor realizou com o pseudônimo de Maqui (chamavam-se maquis os soldados da resistência francesa à invasão alemã da França, na Segunda Guerra Mundial). “Nessas charges, algumas publicadas na imprensa, na época, Iberê exercita a ironia mordaz, impiedosa, que dedicava aos políticos nacionais. Nada mais atual”, destaca a curadora.

“A predominância de gravuras e desenhos pretende frisar uma das características fundamentais da obra de Iberê: o pensamento gráfico, o pensamento criativo que deriva do desenho. Nele se observam os exercícios de acurada observação da figura e as infinitas conotações que o artista construía para nos aproximar dessas humanidades”, afirma Angélica.

Entre as pinturas, a tela Fantasmagorias IV, de 1987, assume o protagonismo da mostra. “As obras escolhidas derivam ou prenunciam esse trabalho. As três figuras esqueléticas da composição parecem furar com seus ossos a carnadura da tinta. Os azuis e os pretos que visitam boa parte da obra do artista nesse período dividem presença com os traços brancos que conferem dramaticidade escultórica ao conjunto. “Minha terra reclama meus ossos”, disse certa vez Iberê”, conta a curadora.

Crítica de artes visuais, jornalista cultural e curadora, a gaúcha de Pelotas radicada em São Paulo desde 1986, Angélica de Moraes, assinou diversas exposições no País, escreveu sobre artes visuais no Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo durante oito anos, foi editora da Select e hoje escreve para veículos especializados como a Cult, Arte! Brasileiros e ArtNexus. É autora ou coautora de 11 livros, o mais recente deles O Valor da Obra de Arte (Editora Metalivros, 2014).

Sobre sua relação com o artista, Angélica conta: “Conheci Iberê Camargo pessoalmente quando de seu retorno a Porto Alegre, em 1982. Nessa época, eu assinava uma página semanal de artes visuais no jornal Zero Hora. Entrevistei-o por diversas vezes, desde então. Era com uma admiração crescente que passei a conhecer de perto o artista e a obra. Ali, eu não era repórter: era aluna. Estava diante do privilégio de tê-lo como cicerone de sua arte. Foram muitas as descobertas nesses momentos de formação. Como quando, fazendo uso de uma dessas luminárias de oficina mecânica de carros, que tem uma lâmpada portátil protegida por uma grade, aproximava a luz de suas telas mais densas e escuras, e anunciava: 'Parece preto, não? Mas olha agora: é azul!' Mostrava o motor, as engrenagens de sua pintura”.