Panmela Castro celebra mulheres negras gaúchas que lutaram pelos direitos femininos em exposição na Fundação Iberê

24.fev.26

Figurando na lista das 150 mulheres que “abalaram o mundo”, feita pela revista americana “Newsweek”, Panmela construiu sua trajetória provocando reflexões sobre questões humanas. A Crônica da Não-Solidão inaugura no dia 14 de março. No dia da aberta, a entrada é gratuita

 

Dona de uma potente e multifacetada produção artística, ao longo de vinte anos, a carioca Panmela Castro vem construindo uma trajetória que articula arte e ativismo. Sua produção se estrutura a partir do conceito de “deriva afetiva”, no qual o acaso não apenas permeia sua obra, mas se torna o sujeito dos acontecimentos que a constituem. Dessa forma, sua prática se inicia na performance, compreendida como um processo relacional que se desdobra em pintura, escultura, instalação, vídeo e fotografia. No dia 14 de março, ela estreia na Fundação Iberê com a individual A Crônica da Não-Solidão. A mostra conta sobre uma forma de pertencer ao mundo: através da arte.

A exposição parte da experiência da artista com a solidão – vivida, observada e atravessada – para afirmar a criação artística como um campo de subversão e de existir através das relações de alteridade. Ao longo das salas, A Crônica da Não-Solidão constrói uma narrativa que subverte a violência com uma proposição de dororidade. O percurso articula obras autobiográficas, proposições participativas e um diálogo direto com a obra de Iberê Camargo, artista cuja produção foi marcada pela intensidade emocional como motor da criação.

Entre as mais de 50 obras em cartaz, 15 foram feitas especialmente para mostra na Fundação, como uma pintura em grandes dimensões – 200 x 400 cm – da série “Artistas no Ateliê”, retratando Iberê Camargo em uma releitura de “Solidão”, o último quadro do artista, que tem as mesmas dimensões. A obra é apresentada ao lado de outra série, também inédita, Expurgos, marcada pela intensidade emocional da pintura como espaço de resistência e continuidade.

“Essa mesma solidão – vivida, observada e elaborada pela artista – transforma-se, aqui, em não-solidão, ao se deslocar para a relação e a construção coletiva, afirmando a arte como espaço de enfrentamento e permanência””, destaca Emilio Kalil, diretor-superintendente da Fundação Iberê.

Já na primeira sala, o público será convidado a trazer objetos atravessados por vínculos afetivos – lembranças, perdas, restos de histórias pessoais – para deixar em um casulo, que serão transformados em esculturas pela artista. Esses objetos, que podem trazer memórias boas ou ruins, serão ressignificados e eternizados pela arte.

O Casulo funciona como um espaço de escuta. Cada contribuição amplia a obra e reforça o princípio central da exposição: a arte como prática de relação e cuidado.

Sala das Mulheres | Encontro e Legado

Na última sala expositiva, Panmela Castro homenageia quatro personalidades negras que construíram formas de resistir e histórias que nos levam a pensar em quantas outras deveriam ser reconhecidas: Iara Deodoro, Magliani, Nega Diaba e Nega Lu. A série de gravuras em água-forte foi produzida durante residência no Ateliê de Gravura da Fundação Iberê sob supervisão do artista Eduardo Haesbaert.

“Líderes em seus contextos, elas contribuíram de forma decisiva para a construção social, política e cultural de suas comunidades, rompendo barreiras e ampliando espaços de atuação feminista”, ressalta a artista.

Iara Deodoro – Referência na cultura afro-gaúcha, a bailarina, coreógrafa, produtora, diretora artística, assistente social, professora e ativista Iara Deodoro deixou como legado a valorização da arte como instrumento de transformação social. Ao longo de 50 anos, dirigiu e coreografou mais de 30 espetáculos, além de atuar no carnaval como porta-bandeira, entre outras funções de bastidores. Ao lado do marido, o cantor e instrumentista Paulo Romeu Deodoro, Iara esteve à frente do Instituto Sociocultural Afro-Sul Odomodê desde sua fundação, em 1974. Foi na instituição (que funciona como movimento de luta e valorização da cultura negra e do direito à livre expressão) que ela deu visibilidade e consolidou a dança afro-gaúcha, com o Grupo de Dança Afro-Sul. Ali, também desenvolveu projetos educacionais e artísticos em música, moda e gastronomia com base na cultura e na história africana e afro-brasileira. Faleceu em 27 de setembro de 2024.

Magliani – Pintora, desenhista, gravadora, figurinista e cenógrafa, Maria Lídia Magliani nasceu em Pelotas, mas mudou-se para Porto Alegre ainda criança e foi uma das primeiras mulheres negras a se formar no Instituto de Artes da UFRGS. Fez sua primeira exposição em 1966, com grande impacto no meio das artes visuais, e, ao longo dos anos, tornou-se uma das artistas gaúchas de maior alcance com sua estética neo-expressionista e forte engajamento feminista. Ela também atuou no teatro, como atriz, e como ilustradora nos jornais Folha da Manhã e Zero Hora. Chegou a morar em São Paulo, Minas Gerais e no Rio de Janeiro, onde faleceu em 2012, aos 66 anos de idade, vítima de uma parada cardíaca.

Nega Diaba – Natural de Rio Pardo, foi a primeira mulher negra eleita para a Câmara de Vereadores de Porto Alegre. A caminhada política começou como recepcionista num programa de rádio conduzido pelo radialista, ex-deputado estadual e ex-senador Sérgio Zambiazi, voltado à assistência social da população. Como vereadora, integrou a vice-liderança do partido entre 1997 e 1999 e foi vice-presidente da Comissão de Defesa do Consumidor e Direitos Humanos. Faleceu em 19 de junho de 2021, aos 63 anos.

Nega Lu – Poucas personalidades inscreveram seu nome na memória afetiva da Capital com tanta irreverência quanto Nega Lu, figura alegre e anticonvencional que se transformou em ícone de sucessivas gerações. Precursor de conquistas sociais e comportamentais que só viriam a tomar corpo duas ou três décadas depois, Luiz Airton Farias Bastos, como está registrado na certidão de nascimento, ganhou fama na cena cultural e boêmia de Porto Alegre entre os anos 1970 e 1990. Madrinha e porta-estandarte da Banda da Saldanha, participou também das primeiras Paradas Livres, nos anos 1990. Sem paciência para exercer a militância gay, apreciava o lado lúdico dos cortejos, aos quais aderia com entusiasmo. Faleceu em 17 de setembro de 2005, dois meses antes de completar 55 anos, já debilitada por doenças como hipertensão e diabetes.

Mulheres pintadas no museu

Em janeiro, durante um período intenso de produção na Fundação Iberê, Panmela Castro passou uma semana na Fundação Iberê retratando mulheres negras que chegaram por diferentes vias — indicações, redes digitais, aproximações. Ao reunir essas mulheres, a sala explicita a ideia central de A Crônica da Não-Solidão: a arte como prática de pertencimento. A troca, a escuta e a presença do outro operam aqui como contraponto direto à experiência do isolamento, transformando o museu em espaço de relação viva.

“Como artista, me coloco explicitamente como convidada estrangeira na cidade, operando a partir da escuta, da confidência e da responsabilidade ética no uso dessas narrativas”, destaca Panmela.

A arte como enfretamento da violência contra as mulheres

Figura central da quarta onda feminista no Brasil, conforme destacado por Heloisa Buarque de Holanda em seu livro “Explosão Feminista”, Panmela Castro é fundadora da Rede NAMI, organização sem fins lucrativos dedicada à promoção dos direitos das mulheres e ao combate à violência de gênero. Suas iniciativas já impactaram mais de 200 mil pessoas no Brasil e ajudaram a transformar a percepção da mulher vítima de violência doméstica na sociedade brasileira.

Por sua atuação em arte e direitos humanos, recebeu títulos e prêmios como Young Global Leader, pelo Fórum Econômico Mundial, DVF Awards e foi reconhecida pela revista Newsweek como uma das 150 mulheres que estão mudando o mundo.

Graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em Pintura e mestre em Artes pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), foi nos grafites que Panmela se encontrou para desenvolver suas criações. No princípio, assinava suas intervenções com o pseudônimo Anarkia Boladona. Com o tempo, passou a pintar pelos muros de cidades, como Nova York, Paris, Istambul, Tel-Aviv, Toronto e Johanesburgo, além de pontos estratégicos do Rio, como a Leopoldina, o Centro e o Arpoador, figuras femininas que representam liberdade e transformação, mas que também atentam para a ignorância sobre os direitos da mulher.

Seu trabalho deixou marcas significativas em instituições, como MASP, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Instituto Inhotim, Stedelijk Museum (Amsterdã), ICA Miami, entre outras, e que hoje integra coleções de referência no circuito internacional.

SERVIÇO
Exposição Panmela Castro – A Crônica da Não-Solidão
Onde:
Fundação Iberê (Avenida Padre Cacique, 2000 – Cristal)
Abertura: 14 de março | Sábado | 14h
Visitação: até 6 de setembro de 2026 | Quinta a domingo, das 14h às 18h (última entrada) | Às quintas-feiras, a entrada é gratuita