Panmela Castro – A Crônica da Não-Solidão
14.mar
06.set.26
A Crônica da Não-Solidão resume a trajetória de Panmela Castro, que tem se voltado para o confronto entre corporalidade, política, memória, paisagens, personagens negras e o diálogo com o mundo das artes.
De um lado, em uma série inédita chamada Expurgo, Panmela apresenta uma releitura livre da obra de Iberê Camargo como um todo, e, em especial, da tela intitulada Solidão. Datada de 1994, a tela é particularmente significativa por conta do tema e por ser o último quadro do artista – finalizado antes de seu falecimento. Por sua vez, o trabalho de Panmela é datado de 2026 e faz parte da série Artistas no Ateliê. Nele, Iberê surge sentado com um estudo da pintura em mãos. Destaca-se também um carrinho com tintas e pincéis e a parede tomada por imagens sugestivas à pintura original.
Alegoricamente, solidão virou um tema que perpassa a exposição, ao mesmo tempo que os traços que escorrem pela tela, como se fossem pintura fresca, evocam a ação do tempo que distancia e aproxima os dois artistas em seus processos de criação.
De outro lado, a artista incluiu um conjunto expressivo de retratos de mulheres negras de Porto Alegre. As quatro gravuras produzidas em metal no ateliê da Fundação, e utilizando a antiga prensa de Iberê, fazem parte de uma série em processo chamada Mulheres Históricas. Elas trazem a história de vida de protagonistas negras que se destacaram no passado, e em diferentes regiões. Já os nove desenhos em pastel oleoso incluem personagens femininas da cidade: algumas já eram conhecidas de Panmela; outras tornaram-se amigas dela durante o processo de preparação dessa mostra. Presente e passado marcam encontro nas paredes da exposição.
Nesses dois segmentos estabelece-se um diálogo criativo com a produção de Iberê Camargo, seja no conteúdo dos trabalhos, seja na forma que tomam, na paleta com cores fortes, na tinta que escorre e na riscadura expressiva.
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O primeiro núcleo da exposição, composto por uma série de obras criadas em diferentes momentos da trajetória da artista, leva o nome de Objetos Afetivos. São trabalhos que carregam consigo várias histórias; todas depositadas em uma “caixa de catarse” e depois em um “casulo” de tecido suspenso. Ambos os dispositivos acolhem objetos ou textos deixados pelo público, e que são transformados pela artista em esculturas. Assim, eles escapam da experiência efêmera da lembrança ligeira para ganhar a matéria rígida do bronze.
No segundo conjunto, Expurgo, cada obra se refere a um dia na vida da artista, formando um arquivo confessional, que ganha uma tradução gráfica mais solta. As cores são marcantes, os traços expansivos – quase gestos livres que evocam a obra de Iberê, mas, ao mesmo tempo, desenham acontecimentos, pensamentos e lembranças da própria Panmela.
Porém, enquanto para Iberê a solidão é parte fundamental do processo criativo, no caso de Panmela, a relação que ela estabelece com as pessoas que convida para posar, estrutura a obra.
A terceira parte da exposição é integrada por três videoartes. Neles, é o corpo de uma mulher negra racializada que surge como local em que se realiza uma política feminista. Um corpo que, portanto, é também coletivo.
Um último conjunto é organizado, justamente, pelos 13 retratos de mulheres de Porto Alegre. Ele retoma uma série mais abrangente da artista, realizada a partir da pintura de mulheres negras, protagonistas da história nacional.
Mas há ainda um quinto elemento deixado numa esquina importante da exposição: o espelho. Esse objeto entrou na história da arte guardando clara ambiguidade – ele é ao mesmo tempo instrumento de verdade e máquina de ilusão. Nesse sentido, o grafite nele disposto imprime o que a mostra, de uma maneira geral, inspira: “a arte é o contrário da solidão”. Se o ato de criar pode ser solitário, o conjunto das obras dessa artista, que já se converteu em uma intérprete visual do país, ostenta a “dororidade” das mulheres negras como um gesto político e, assim sendo, sempre coletivo.
Lilia K. Moritz Schwarcz
Imagem: Panmela Castro. Visita à Fundação Iberê, da série Expurgo, 2025. Foto © Julia Thompson