Trajetória do islandês Erró, um dos principais nomes da vanguarda europeia dos anos 1960, será apresentada na Fundação Iberê
Realizada em parceria com o Museu de Arte de Reykjavík, da Islândia, a exposição Erró: de imagem a imagem inaugura no dia 28 de março. No dia da abertura, a entrada é gratuita
“Na minha pintura, questiono o mundo – sua absurdidade, sua selvageria, sua própria realidade. Todos os dogmas e ritos oficiais me deixam indiferente. Minha independência é inalienável (…) vejo-me como uma espécie de cronista, um repórter, trabalhando dentro de uma grande agência que reúne todas as imagens do mundo – e estou aqui para criar uma síntese delas”, afirma o artista islandês Guðmundur Guðmundsson, ou Erró, reconhecido em todo mundo como um dos dos mais importantes nomes da vanguarda europeia dos anos 1960, da pop art e do surrealismo. Aos 93 anos, o artista continua mais ativo como nunca, trazendo humor sob forma de informação e brincando com as principais figuras e fatos políticos do século. “Imagem, colagem, reprodução, histórias em quadrinhos. Meu trabalho é confrontar documentos de uma grande diversidade para compor uma fotografia manual”, conta.
A arte de Erró é associada à renovação da figuração pictural por meio da criação de seus quadros-colagens, de temática crítica e satírica, mas também ao movimento dos happenings e ao cinema experimental. Seu mundo pictórico é povoado por personagens de histórias em quadrinhos e déspotas autocráticos: Pato Donald com sua Daisy, Chip & Dale e outras criações de Walt Disney são inconscientemente justapostos com deuses gregos e madonas. Em outro lugar, Adolf Hitler está ombro a ombro com seu homólogo iraquiano Saddam Hussein, enquanto o líder chinês “Mao Zedong” é retratado em uma proposta verdadeiramente monumental.
O artista adota o mesmo espírito provocador para expor lideranças cujas máquinas de propaganda defendem a ditadura, o conformismo e a uniformidade, como ele, em outras de sua série de filmes, para permitir que suas orientais com véus exponham os próprios seios. Pastiches de Picasso, Léger, Disney e Dalí também se tornaram uma espécie de marca registrada, à medida que ele implanta um pot-pourri de estilos e linguagens pictóricas com abandono deliberado.
Pela primeira, a trajetória de seis décadas de Erró será apresentada na Fundação Iberê, em parceria com o Museu de Arte de Reykjavík, da Islândia, a partir de 28 de março. Com curadoria de Danielle Kvaran, pesquisadora francesa e uma das principais especialistas da obra do artista, a exposição Erró – de imagem a imagem reúne cerca de 50 pinturas e colagens produzidas a partir de 1966, nas quais ele reconfigura o mundo a partir de fragmentos – confrontando o público com uma linguagem visual ao mesmo tempo crítica, lúdica e inconfundivelmente pessoal.
“Esta exposição vem sendo gestada desde minha passagem pela Dinamarca, em março de 2023, quando os curadores Gunnar e Danielle Kvaran me convidaram para a abertura de outra exposição de Erró, intitulada O poder das imagens. Na ocasião, tive o privilégio de conhecer mais amplamente a obra, o artista e sua visão de sociedade, de arte e de política, sempre entremeada de muito humor que, na maioria das vezes, se revela uma arma ácida e eficaz. Erró foi um dos artistas radicais das décadas 50 e 60, comprometido com a nova pintura figurativa, crítica do contexto sociopolítico de sua época. Aos 93 anos de idade, sua obra permanece universal e atemporal – e talvez mais pertinente do que nunca no mundo polarizado em que vivemos”, afirma Emilio Kalil, diretor superintendente da Fundação Iberê.
Erró sempre foi um apaixonado consumidor e criador de imagens. Desde cedo, encontrou prazer no desenho e na pintura, fascinado pelas múltiplas formas de representar o mundo. Segundo ele, sua aguçada percepção visual tornava mais fácil descrever as coisas por meio de imagens do que por palavras. Seu talento para o desenho se desenvolveu rapidamente e logo foi reconhecido na escola e em seu entorno. Ser filho de um artista – o pintor figurativo e ceramista islandês Guðmundur Einarsson de Miðdalur – certamente o incentivou nesses caminhos. No entanto, seu verdadeiro mentor foi o pintor paisagista não convencional Jóhannes Sveinsson Kjarval, que lhe deu seus primeiros tubos de tinta e pedaços de tela.
Ainda adolescente, Erró decidiu naturalmente tornar-se artista. Movido por uma sede insaciável de conhecimento e pelo desejo de explorar formas, técnicas e ideias, estudou em escolas de arte em Reykjavík, Oslo, Ravena e Florença. Seu interesse em se aproximar das linguagens artísticas mais contemporâneas o levou a se estabelecer em Paris, no outono de 1958, e, mais tarde, a viajar para Nova York, entre dezembro de 1963 e maio de 1964. Essas experiências transformaram, de forma gradual, sua abordagem da pintura, abrindo-a a novas linguagens visuais e estruturas conceituais.
Ao longo de toda a sua carreira, ele manteve um compromisso constante com acesso a sua arte sua arte – tanto visual quanto econômica – a um público amplo. Já em 1956, na Itália, afirmava que a arte deveria habitar os espaços públicos. Em 1959, em Paris, destacava a importância da visibilidade museológica e incentivava a aquisição de obras de pequeno formato – pinturas, mosaicos, gravuras – para enriquecer os ambientes cotidianos. Ao longo das décadas, realizou numerosos projetos de arte pública, incluindo murais na Islândia, França e Portugal. Além disso, merece destaque o fato de que ele fez doações expressivas a instituições públicas, em especial ao Museu Nacional de Arte Moderna do Centre Pompidou, em Paris, e, de forma ainda mais ampla, ao Museu de Arte de Reykjavík, que desde 1989 recebeu mais de 4,5 mil obras. É sobre essa imensa riqueza e diversidade que se constrói a presente exposição.
“Reunidas ao longo de suas viagens pelo mundo, as imagens de referência de Erró abrangem todos os campos imagináveis – da arte e do cinema às histórias em quadrinhos e caricaturas, passando pela ciência e tecnologia, história e política, publicidade e propaganda, e até o erotismo. Submetidas a diversas formas de apropriação e recombinação inventiva, essas imagens alimentam um universo denso e satírico. Visualmente explosivas, suas obras confrontam o espectador com ícones reimaginados, narrativas fraturadas e confrontos visuais ousados. Cada trabalho convida à reflexão sobre mitos, estruturas de poder e sistemas midiáticos, com uma sagacidade afiada, que abre espaço para a precisão – e até mesmo para a poesia”, destaca Danielle.
Sobre a curadora – Danielle Kvaran (1956) é pesquisadora e curadora francesa, uma das principais especialistas da obra de Erró. Desde 2008, atua como pesquisadora e curadora da Coleção Erró no Museu de Arte de Reykjavík, que abriga o mais extenso conjunto de obras e arquivos do artista. Colaborou com instituições de destaque como o MAC Lyon, o MNAM–Centre Pompidou e a Schirn Kunsthalle. Autora de Erró Chronology (2007), monografia de referência sobre o artista, foi curadora da retrospectiva Erró: The Power of Images (2022).