Erró: imagem a imagem

Curadoria

Danielle Kvaran

28.mar

02.ago.26

Erró, nascido Guðmundur Guðmundsson, em 1932, no oeste da Islândia, é conhecido por ter inventado a pintura-colagem narrativa. Essas composições, geralmente concebidas em séries, constituem uma contribuição fundamental para a renovação da figuração pictórica na arte do pós-guerra. Atuando entre a colagem, a pintura, a gravura, a performance e o cinema experimental, o artista desempenhou um papel central na vanguarda europeia dos anos 1960. Embora com frequência associado ao Dadaísmo, ao Surrealismo, à Figuração Narrativa e à Pop Art, sua produção artística desafia classificações e afirma uma voz criativa marcada por uma independência feroz.

Desde o início de sua carreira, Erró tem buscado inspiração em imagens criadas por outros. Seus primeiros experimentos com citação visual e colagem deram lugar, nos anos 1960, a uma virada decisiva: o abandono de seu imaginário pessoal para trabalhar exclusivamente com o repertório imagético coletivo de seu tempo. A partir desse momento, a colagem deixou de ser apenas uma técnica – tornou-se o modelo estrutural de toda a sua produção pictórica, gráfica e cinematográfica, assumindo o papel antes ocupado pelos esboços preparatórios.

Por meio de uma seleção de colagens, pinturas, gravuras e filmes da Coleção Erró do Museu de Arte de Reykjavík, esta exposição percorre mais de seis décadas de criação nas quais o artista reconfigura o mundo por meio de fragmentos – confrontando o público com uma linguagem visual ao mesmo tempo crítica, lúdica e inconfundivelmente pessoal.

Reunidas ao longo de suas viagens pelo mundo, as imagens de referência de Erró abrangem todos os campos imagináveis – da arte e do cinema às histórias em quadrinhos e caricaturas, passando pela ciência e tecnologia, história e política, publicidade e propaganda, e até o erotismo. Submetidas a diversas formas de apropriação e recombinação inventiva, essas imagens alimentam um universo denso e satírico. Visualmente explosivas, suas obras confrontam o espectador com ícones reimaginados, narrativas fraturadas e confrontos visuais ousados. Cada trabalho convida à reflexão sobre mitos, estruturas de poder e sistemas midiáticos, com uma sagacidade afiada, que abre espaço para a precisão – e até mesmo para a poesia.

Essa abordagem provocadora e incisiva transforma cada imagem em um espaço de resistência e fantasia. Aqui, a arte não se limita a espelhar o mundo: ela o desmonta, o reorganiza e revela seus mecanismos ocultos. Convida-nos a ver – e a pensar – de outra forma.

 

Danielle Kvaran
Curadora

 

Imagem: Erró. Double Spacelab [Spacelab duplo], da série Spatiale [Espacial], c. 1975. Detalhe. Foto © Museu de Arte de Reykjavík