O Acervo

Iberê Camargo sempre desejou permanecer. Permanecer não como matéria, mas como arte, expressão máxima de sua vida. A preocupação pessoal com a preservação de sua obra foi uma constante desde os primeiros anos de produção, ainda na década de 1940, mesmo que o processo ainda não tivesse uma sistemática organizada. Entre os cadernos de anotações e desenhos que mantinha, era comum encontrar informações sobre cada quadro realizado, evidenciando a busca do artista em preservar um conjunto de sua produção.

Foi na década de 1950 que a trajetória de Iberê Camargo passou a ser devidamente registrada a quatro mãos, com o apoio da esposa, Maria Coussirat Camargo. São datados dessa época os primeiros cadernos preenchidos com esse propósito, contendo dados detalhados de cada obra produzida, o primeiro tombamento das obras, como Iberê e a esposa costumavam referir-se à tarefa. O providencial trabalho de catalogação, que incluía também um minucioso processo de preservação de documentos relacionados à vida e à carreira do artista, foi mantido pela esposa com dedicação incansável durante todos os anos que se seguiram, até a morte de Iberê Camargo, em 1994.

No ano seguinte ao falecimento, o desejo acalentado pelo artista de sobreviver à perenidade da vida através da arte foi levado a cabo pela viúva, juntamente com o empresário Jorge Gerdau Johannpeter, este profundo admirador da obra de Iberê, e outros representantes da comunidade. Assim nasceu a Fundação Iberê Camargo. O acervo preservado por Maria Coussirat Camargo na casa onde o casal morava, em Porto Alegre, foi doado à nova instituição que se firmava e hoje constitui o seu acervo, que está dividido em dois núcleos.

O núcleo de obras de arte abriga a coleção Maria Coussirat Camargo e é composto por mais de cinco mil obras, entre pinturas, gravuras, guaches, desenhos e estudos de Iberê Camargo. A parte documental inclui mais de vinte mil itens, como catálogos, recortes de jornais e revistas, correspondências, cadernos de notas e fotografias relacionadas à vida e à obra do artista.

Fio condutor para a gestão e desenvolvimento das iniciativas que dão foco à Fundação, o acervo é responsável por nutrir e atender diariamente as demandas internas e externas, fornecendo subsídios para curadorias, exposições do acervo e exposições externas, além de disponibilizar informações e materiais para publicações, pesquisas e estudos realizados por especialistas nacionais e internacionais sobre o legado de Iberê Camargo.

Desenhos e Guaches
São 3.246 obras que abrangem desde o início de seu aprendizado, em 1927, quando Iberê ainda copiava “estampas de revistas” (na Escola de Artes e Ofícios de Santa Maria), até a imaterialidade de suas últimas linhas, em 1994. Os meios utilizados variam desde grafite até pastel seco e oleoso, passando por carvão, nanquim, tinta de esferográfica, lápis Stabilotone e guache, entre outros.

Pinturas
O acervo possui 216 pinturas, que abrangem o período de 1941 a 1994. A quase totalidade delas é de óleo sobre tela, com algumas exceções de óleo sobre madeira e sobre papel. Livre das regras do academicismo, Iberê sempre buscou o rigor técnico, mantendo-se fiel às suas memórias (o “pátio da infância”) e ao que considerava ético e justo. Sua pintura expressa este não-alinhamento com os movimentos e com as escolas.

Gravuras
São 1.570 exemplares de 356 gravuras, entre gravuras em metal, litografias, monotipias, xilogravuras e serigrafias. Iberê iniciou seu aprendizado em gravura no ano de 1943, com Hans Steiner, no Rio de Janeiro. Via em seu amigo Goeldi o “mais alto expoente” da gravura brasileira e, em 1948, buscou aprimoramento técnico junto a Carlo Alberto Petrucci, em Roma. Trocou farta e apaixonada correspondência com Mário Carneiro (quando este estava no ateliê de Friedlander, em Paris) e, em 1973, aprofundou seus conhecimentos de impressor no ateliê dos irmãos Frelaut, também em Paris.

Parte desse extenso acervo é apresentada por meio deste website, uma seleção de aproximadamente 400 obras pertencentes à Fundação Iberê Camargo, dentre pinturas a óleo, gravuras, desenhos e guaches. Um recorte que exalta a força e a densidade artística de Iberê Camargo e sinaliza uma reflexão acerca de seu legado, tombado como desejava seu autor e imortalizado como devidamente merecem permanecer na história os grandes artistas.

 

Imagem: Vista da reserva técnica da Fundação Iberê Camargo. Foto © Elvira T. Fortuna

Col. Ateliê de Gravura

Durante os últimos anos de sua vida, Iberê Camargo manteve em sua residência um ateliê de gravura com uma prensa alemã, onde criava obras na técnica de gravura em metal até seu falecimento, em 1994.

No ano de 1999, a Fundação Iberê Camargo incluiu oficinas de gravura em sua programação, ministradas por Anna Letycia, Evandro Carlos Jardim, Claudio Mubarac e Carlos Martins. Neste período, foi proposto aos dois últimos artistas que deixassem uma matriz para a instituição, dando início à coleção Ateliê de Gravura da Fundação Iberê Camargo. Em 2001, o Programa Artista Convidado tem seu formato implantado: uma ação que convida artistas de projeção nacional e internacional, não necessariamente habituados à técnica da gravura, para debruçarem-se sobre ela durante uma semana, com o objetivo de criar obras inéditas.

A antiga prensa que pertenceu a Iberê e que, transladada ao ateliê desenhado por Álvaro Siza para a nova sede da Fundação, perpetua a essência do programa. Desde a sua criação, já recebeu mais de 100 convidados selecionados pelo Conselho Curatorial da Fundação. Dentre eles, estão artistas como Amilcar de Castro, Anna Bella Geiger, Regina Silveira, Iole de Freitas, Paulo Bruscky, Jorge Macchi, León Ferrari, Maria Bonomi, Nelson Felix, Tomie Ohtake e Waltercio Caldas.

Da soma de práticas e experiências, a Fundação Iberê Camargo compôs, ao longo dos anos, uma significativa coleção de gravuras assinadas por artistas contemporâneos do Brasil e do exterior.

 

Imagem: Vista do Ateliê de Gravura da Fundação Iberê Camargo. Foto © Fabio Del Re_VivaFoto

Catalogação

O trabalho de catalogação busca identificar todo o legado artístico e os arquivos de Iberê Camargo, que permitem visualizar o conjunto de sua produção entre as diversas categorias de pinturas, desenhos, guaches e gravuras, em suas inter-relações constantes.

Envolve a recuperação de todos os dados técnicos e artísticos de cada uma das produções do artista. Referências de datas, emprego de técnicas de trabalho, dimensões, relações com o meio de arte, atuações de ordem mercadológica e institucional são alguns dos itens que exigem buscas constantes e detalhadas, simultaneamente a uma reflexão sistematizada sobre a obra.

Iberê Camargo – Catálogo Raisonné – Volume 1 – Gravuras
O primeiro catálogo publicado pela Fundação Iberê Camargo, em parceria com a Editora Cosac Naify, é resultado de um trabalho de pesquisa e catalogação, que consistiu na busca de reconhecimento de todas as gravuras produzidas pelo artista. Muitas delas encontravam-se no acervo da Fundação Iberê Camargo e haviam sido guardadas pelo próprio Iberê e preservadas por sua esposa, Maria Coussirat Camargo, na primeira sede da instituição. Outras, porém, requereram um amplo trabalho de pesquisa em outras coleções.

No catálogo raisonné está o maior número de dados possíveis sobre cada gravura: desde seus títulos, datas, locais de produção e de impressão, suas dimensões e a técnica utilizada até o tipo de papel sobre o qual foram impressas, os nomes dos impressores, informações sobre as edições e provas de cada gravura, os carimbos empregados pelos ateliês de impressão e os dados sobre as assinaturas. Constam, ainda, as inscrições encontradas nas obras, sua integração em coleções públicas, em exposições e todas as referências nas quais as obras são citadas. Além disso, em notas, é relatado o processo de trabalho do artista nas principais gravuras e suas opções experimentais.

No texto que acompanha as obras catalogadas estão as relações que o artista estabeleceu com sua própria produção, e, em especial, a forma como ele concebeu cada uma delas, além de um destaque a seu pensamento artístico sobre a gravura, referente a cada momento da obra. Este catálogo raisonné (catálogo “pensado”) foi o primeiro de gravuras publicado no Brasil. Por isso, configura um marco na história da arte brasileira e na difusão da obra de Iberê Camargo.

Catalogação hoje
Uma vez concluída e publicada a pesquisa sobre as gravuras de Iberê Camargo em 2006, todas as outras produções de obras únicas estão em processo de identificação e catalogação – óleos, guaches, desenhos, pinturas sobre porcelana, tapeçarias, entre outros.

Realiza-se, neste momento, o mapeamento de todas as obras do artista, registradas por seus locais de origem em coleções particulares e públicas e também pelas décadas de produção. No futuro, elas serão visitadas pela equipe de catalogação e avaliadas para autenticação.

Todos os detentores de obras do artista – colecionadores, galeristas, instituições públicas e privadas – têm a oportunidade de participar do processo de resgate deste importante patrimônio da história da arte brasileira e de ter sua obra incluída nos próximos catálogos raisonnés. Para tanto, entre em contato conosco através do e-mail acervo@iberecamargo.org.br.