Um dos expoentes da arte experimental brasileira, Pedro Escosteguy ganha a maior exposição já dedicada à sua trajetória na Fundação Iberê

16.set.26

Reunindo documentos, fotografias, registros audiovisuais e obras históricas produzidas entre as décadas de 60 e 70, a curadoria de Gustavo Possamai, da Fundação Iberê, e Gustavo Nóbrega, da Galeria Superfície, percorre a trajetória do artista desde a poesia de vanguarda ligada ao Grupo Quixote até sua contribuição para a arte experimental e para a construção de uma arte pública e participativa 

  

No dia 26 de setembro (sábado), a Fundação Iberê inaugura a exposição Pedro Escosteguy – poesia, vanguarda e opinião. Com curadoria de Gustavo Possamai, da Fundação Iberê, e Gustavo Nóbrega, da Galeria Superfície, que representa o espólio do artista, a mostra reúne, pela primeira vez, grande parte de sua produção visual, acompanhada de publicações, documentos e registros de sua trajetória, para ampliar o conhecimento sobre sua participação na vanguarda brasileira. Às 15h30, Possamai e Nóbrega conduzen o público a uma visita mediada pela exposição.

 “É preciso quebrar as estruturas”. A frase de Pedro Escosteguy, em 1972, é reveladora de sua trajetória artística. Nascido em Santana do Livramento, em 1916, foi poeta, artista visual, ensaísta e, por mais de 40 anos, um importante gastroenterologista. Homem de letras e leitor de filosofia, construiu uma obra marcada pela reflexão crítica e pela permanente experimentação entre palavra, imagem, objeto e participação.  

Nome ainda pouco conhecido na cena cultural, Escosteguy teve participação relevante na vanguarda brasileira e contribuiu para a expansão dos meios e suportes tradicionais. Nos anos 1950, integrou o Grupo Quixote e tornou-se um dos principais articuladores da expansão da poesia para além do livro: poemas ilustrados, poemas projetados e ações públicas sob o lema “O povo tem direito à poesia”.  

Criado em 1946, o grupo formado por jovens escritores, como Raymundo Faoro, Wilson Chagas, Silvio Duncan, Fernando Jorge Schneider e Paulo Hecker Filho, buscava movimentar a cena cultural do Estado e “almejava imprimir às nossas coisas o sopro da emoção nova e da inquietação criadora que brota do atual momento brasileiro”, conforme consta na primeira revista do grupo. 

Nesse período, Escosteguy desenvolveu experiências com poemas registrados em filme para projeção. Essas experiências já revelavam seu interesse em ultrapassar os limites convencionais da página e explorar outros modos de relação entre palavra, imagem e leitor. 

Em 1960, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde criou os Anticontos, narrativas extremamente breves que condensavam situações, imagens e ideias em poucas linhas. Sua produção aproximou literatura, crítica, artes visuais e pensamento político. Estabeleceu intensa interlocução com artistas como Antonio Dias, Rubens Gerchman, Carlos Vergara e Hélio Oiticica.  

A inserção de Pedro Escosteguy nas artes visuais não significou o abandono da poesia. A palavra permaneceu elemento central de muitos de seus objetos, associada à imagem, ao movimento e à participação do público. Ele produziu quadros/objetos em que misturava formas abstratas e palavras de ironia e denúncia política – Torturador (O monstro), 1964; Jogo (Roleta), 1964; Estória / O fim da Idade do Chumbo, 1965; Psicodrama, 1965; entre outros. Esses trabalhos convocavam a participação do público e punham em diálogo códigos visuais e semânticos, abordando diretamente questões políticas em meio ao avanço da ditadura militar. 

Seus objetos recusavam a contemplação passiva, tinham forte dimensão política e convocavam o espectador ao contato físico e à participação. Escosteguy insistia em permanecer “totalmente desligado do mercantilismo do mercado de arte” e compreendia a passagem da poesia ao objeto como um processo contínuo: “o poema se enriquece quando se integra em suportes adequados”, escreveu, e “o objeto se levanta a partir desse núcleo conceitual”. 

“As obras de Escosteguy revelam que a passagem da poesia ao objeto nunca foi uma ruptura, mas o desdobramento de um mesmo pensamento artístico. Ele mudou de linguagem sem abandonar suas questões fundamentais – liberdade, comunicação e participação. Talvez seja dessa coerência rara, entre poesia, objeto e vida, que sua obra continue a retirar sua força”, dizem Possamai e Nóbrega.  

“Pare. Olhe. Escute.” E “Não se desintegre.”  

Em um depoimento de 1977, até então inédito e publicado no encarte que acompanha a exposição, Escosteguy refletiu sobre sua própria trajetória: “Meus temas de vida e morte, liberdade, igualdade e fraternidade, dominantes do meu repertório existencial, têm sua origem num dia 14 de julho, na cidade de Santana do Livramento, vizinha e irmã gêmea de Rivera, no meio do ano de 1916 e da Primeira Guerra Mundial. Foi ali que tive infância, juventude, amor, tristeza, desespero e um grande mapa por onde deveria transitar toda essa carga como um diamante bruto. Nesse deslocamento imprevisível teria que lapidá-lo, sem pressa nem vagar, como diz o gaúcho, às vezes me perdendo, mas sempre me reencontrando.” 

Escosteguy mudou-se ainda jovem para Porto Alegre, onde completou seus estudos na Faculdade de Medicina da Universidade do Rio Grande do Sul, formando-se em 1938. Renomado gastroenterologista, fundou o Departamento de Gastroenterologia da Associação Médica do RS, publicou artigos científicos e lecionou em cursos de aperfeiçoamento. Foram 42 anos dedicados à profissão, conciliados com intensa produção intelectual e artística. 

Em Objeto popular (1966), apresentado na Galeria G4, o artista criou um objeto de madeira em forma de armário, suspenso na parede, fechado por duas portinholas, sobre as quais duas metralhadoras, recortadas em madeira, ganhavam destaque. Se abertas as portas, as armas desapareciam, mas via-se no interior do armário uma urna eleitoral com a palavra “VOTE”. Realizada em 1966, quando sucessivos Atos Institucionais restringiam o voto e ampliavam o controle militar sobre a vida política brasileira, Objeto popular contrapõe a violência das armas à participação democrática, tendo a urna eleitoral como seu núcleo simbólico.  

Escosteguy participou de importantes exposições da vanguarda brasileira, entre elas Opinião 65 (1965), Proposta 65 (1965), a VIII Bienal de São Paulo (1965), G4 (1966), Opinião 66 (1966), a IX Bienal de São Paulo (1967) e Nova Objetividade Brasileira (1967), da qual participou da organização ao lado de Carlos Vergara, Frederico Morais, Hélio Oiticica, Rubens Gerchman e outros artistas. Participou também de Arte no Aterro: um mês de arte pública (1968), evento organizado por Frederico Morais no Aterro do Flamengo, além de diversas edições do Salão Nacional de Arte Moderna. Em 1968, participou da realização do filme Arte pública, para o qual escreveu o texto e o roteiro, documentando a Bienal de 1967, os ateliês de diversos artistas e performances de Lygia Clark, Lygia Pape e Hélio Oiticica. 

 Após retornar a Porto Alegre, em 1980, Pedro Escosteguy dedicou-se ao desenvolvimento de novos projetos literários, entre eles um livro de haicais e um tarô poético, que não chegaram a ser concluídos. Em 1988, publicou Relatório da noite, reafirmando a permanência da poesia ao longo de toda a sua trajetória. Faleceu em Porto Alegre no ano seguinte, aos 73 anos. 

Seu acervo começou a ser organizado, em 1991, pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS, na casa que dividia com a esposa Marília Tavares Utinguassú, localizada na rua Jacinto Gomes, no bairro Bom Fim, em Porto Alegre. Apesar desse trabalho de preservação, sua produção visual teve circulação bastante reduzida nas décadas seguintes.