A moda pelo viés da arte

25.jun.20

Não é de hoje que a moda volta seus olhos para a arte. Os dois universos sempre buscaram o diálogo, seja de forma subjetiva, quando a arte inspira uma coleção ou, literalmente, quando os traços do artista se tornam o diferencial de uma peça de roupa.

No final dos anos 1950, quando a moda ainda engatinhava no Brasil, o publicitário italiano radicado em São Paulo, Livio Rangan, criou campanhas e desfiles grandiosos mesclando peças assinadas por estilistas nacionais, arte e cultura pop. Por trás do projeto estava a Rhodia, empresa francesa de fibras sintéticas que acabara de chegar ao país e precisava se tornar conhecida. A estratégia utilizada foi convidar artistas para desenhar estampas de peças únicas apresentadas a cada coleção. Entre os convidados ilustres estavam Iberê Camargo, Tomie Ohtake, Milton Dacosta, Nelson Leirner, Ivan Serpa, Manabu Mabe, Alfredo Volpi, Willys de Castro. Parte das criações se perdeu ao longo do tempo (caso de peças de Ohtake, Iberê e Dacosta), mas 79 modelos de 28 artistas foram doados em 1972 ao Museu de Arte de São Paulo, formando um conjunto batizado de Coleção MASP Rhodia.

Em 1986, o Grupo de Moda Vanguarda Sul lançou sua coleção outuno-inverno no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, apresentando imagens de Iberê pintando três manequins vestidas com roupas e acessórios escolhidos pelo próprio artista. “O fato de Iberê Camargo ter se sensibilizado com este momento da moda dá ao evento um componente de maior repercussão”, disse na época Evelyn Berg Ioschpe, então diretora do Margs.

Na medida em que moda é “aceita” como arte e em que um desfile se articula com artistas, volta a discussão. Moda é arte? Para Gloria Kalil, não. Enquanto a arte propõe reflexões, e, se não for vendida, não perde seu valor, a moda é, unicamente, uma indústria criativa: “É verdade que a roupa é uma forma de expressão, mas não é arte. A arte tem um elemento cultural de ruptura. É mais profundo, propõe novas formas de olhar o mundo. E a moda não foi feita para ser arte. É uma indústria, foi feita para ser consumida e não refletida”.

Na opinião de Lilian Pacce, moda é apenas uma foma com inspirações mútuas. Segundo a jornalista, há muitos exemplos de estilistas se inspirando ou colaborando com artistas, e de institutições culturais enriquecendo seu acervo com peças de artistas, como é o caso do MASP, que tem em seu acervo uma série de 79 peças selecionadas por seu ex-diretor Pietro Maria Bardi (1900-1999).

“Temos acervo grande de moda. Guardadas as devidas proporções, queremos que o MASP seja referência como o Costume Institute, do MET – Metropolitan Museum of Art, em Nova York. O sonho mesmo é conseguir ser o que o MET é pra moda em termos de museu”, diz Juliana Sá, diretora de relações institucionais do museu.

Moda e arte antes da corrente de wearable art
A revolução do movimento modernista do início do século 20 foi inspiradora para a moda, e a quebra de esteriótipos e a libertação de ideias impulsionaram uma ligação entres as duas vertentes. Começou tímida, apenas com referências cubistas no estilo Channel, e depois audaciosa com Elsa Schiaparelli, que a conectou ao momento artístico da época. Vários estilos de arte, como o Dadaísmo, Surrealismo e Art Deco, inspiraram a estilista a inovar sem medo em modelos criativos e extravagantes para sua coleção.

Assim surgiu um conceito artístico para as roupas, que não tinha mais como objetivo apenas o vestir, e sim ser valorizada como arte. A década de 50, marcada pelo New Look de Dior, foi um período de retorno à alta costura e, a de 60, de quebra de regras, onde os jovens propuseram um novo estilo de vida, refletindo isso na indumentária para exteriorizar seu ser.

Em 1965, foi a vez de Yves Saint Laurent lançar uma coleção inspirada no holandês Piet Mondrian, com estampas geométricas e a linha trapézio. As pinturas de Mondrian eram símbolo internacional do que era moderno e elegante naquela época, e, por esse motivo, suas obras foram escolhidas como fonte de inspiração.

No Brasil, em 1987, quando o MASP realizou a exposição “Traje: um objeto de Arte?”, a presença de objetos do vestuário naquele museu não era novidade. Em 1951, por exemplo, poucos dias antes da realização do desfile de “Costumes Antigos e Modernos”, quando o museu recebeu o costureiro francês Marcel Rochas para o lançamento de seu perfume, além de anunciar o acontecimento, o release do MASP para a imprensa, certamente escrito por Bardi, informava que: “(…) A moda é uma das atividades importantes no campo da arte, e ainda que com suas épocas passageiras e variáveis, está ligada com recíprocas influências que traz a moda na vida do homem. (…) O vestido é para o corpo como o estilo é para uma época. Por outro lado, deve-se ressaltar que um belo traje vale tanto quando uma boa pintura. A moda é sempre a conseqüência de um modo de pensar e de viver (…).”

A moda ganhou espaço nos museus e galerias mais consagrados do mundo. Em 2010, o artista carioca Vik Muniz foi convidado pela Louis Vuitton para uma parceria e assinou a foto escolhida para estampar um lenço da grife francesa. No ano seguinte, a exibição “Alexander McQueen: Savage Beauty” se tornou a exposição de moda mais vista da história do Metropolitan, atingindo a marca de 700 mil visitantes em três meses.

Em 2015, a Saatchi Gallery, prestigiada galeria de arte de Londres, sediou a exposição “Mademoiselle Privé”, que propõe uma imersão no universo artístico de Chanel, com vestidos de alta-costura, fotografias de celebridades trajando peças da maison e uma série de joias exclusivas criadas pela estilista nos anos 1930. A mostra passou por Seul, Hong Kong e Xangai.

Em abril do ano passado, a Le Lis Blanc se uniu à Escola Vidigal, no Rio de Janeiro, para criar uma coleção especial com estampas desenvolvidas pelos alunos da instituição, idealizada em 2015 por Vik e o fotógrafo Fábio Ghivelder, para promover aulas de arte e tecnologia entre crianças da comunidade carioca.

As impressões digitais de crianças, com idades entre 5 e 12 anos, foram a base das ilustrações presentes em peças como moletons, bolsas, nécessaires, lenços e t-shirts. Liderado pela professora de alfabetização visual Daisy Santos Soares, o projeto batizado “Identidade” teve como inspiração o trabalho do ilustrador americano Ed Emberley, autor de livros que ensinam as crianças a desenhar.