Arnaldo de Melo – O gesto crispado

01.maio

12.set.21

No Brasil, em que pese a alta qualidade das nossas artes visuais, grande parte dela se mantém invisível. Afora as reputações de sempre, obras inteiras são pouco vistas, quando não ficam adormecidas por décadas à espera de quem as “descubra”. Uma prova disso é essa exposição de pinturas de Arnaldo de Melo, que oportunamente a Fundação Iberê traz à público, mais não fosse porque, à maneira do mestre gaúcho, o gesto também é seu protagonista.

Arnaldo é o autor de uma obra que atingiu a maturidade muito rapidamente, já nos anos 1980, quando concluiu os estudos na Hochschule der Künste Berlin, onde estudou sob a orientação do mestre neo-expressionista, Karl-Horst Hödicke. Por si só, isso não explica a base sólida de seu trabalho. Sua formação envolveu o conhecimento profundo da produção expressionista-abstrata norte americana, obtida em seus anos novaiorquinos, em concomitância aos seus estudos sobre a caligrafia japonesa e a surpresa, em primeira mão, advinda com o contato com a obra de Basquiat, entre outros artistas igualmente jovens e furiosos.

Arnaldo amalgamou essas fontes, decantadas em análises e gestos, à sobreposição de ruídos e sujeira das metrópoles, como Porto Alegre. Uma informação que esvazia qualquer tentativa de enquadrar sua obra nos quadros do individualismo heroico do pós-guerra, e justifica a força de seu comentário num mundo que se desfaz em meios e signos fugazes.

Agnaldo Farias

 

Imagem: Peristylos, 2018. Tinta acrílica sobre tela, 225 x 330 cm. Coleção Mário Henrique D’Agostinho, São Paulo. Foto João Mascaro

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