As durações do rastro: fotografias de Jordi Burch frente à arquitetura de Álvaro Siza Vieira

16.jun

05.ago.18

Entre fevereiro e março de 2016, o arquiteto português Álvaro Siza Vieira retornou a quatro conjuntos habitacionais projetados por ele em cidades europeias, depois de muitos anos sem tê-los revisitado: ao Bairro da Bouça, no Porto (1973); ao Campo di Marte, na Giudecca, em Veneza (1983); ao edifício Bonjour Tristesse, no bairro de Kreuzberg, em Berlim (1984); e ao Schilderswijk West, em Haia (1985). As visitas, promovidas pela representação de Portugal na Bienal de Arquitetura de Veneza, foram acompanhadas pelo jovem fotógrafo português Jordi Burch (1979), radicado desde 2008 em São Paulo, e uma equipe de cinegrafistas.

O projeto, que na Bienal de Arquitetura de Veneza se intitulava Neighbourhood – Where Alvaro meets Aldo, levou Jordi Burch ao desenvolvimento de um trabalho que foi muito além do registro mais objetivo dos conjuntos habitacionais e de seus moradores. Como o novo título da série sugere, sua atenção, em As durações do rastro, se voltou para os vestígios, as marcas, as impressões deixadas pela passagem do tempo seja no âmbito externo, como na própria arquitetura, seja no mais íntimo, como nas paredes internas e nos objetos encontrados nos apartamentos.Comenta Burch: “Quando olhava para os espaços, para os materiais, para qualquer traço humano, ou da natureza, olhando para o concreto mas também para o que ele tem de fóssil, eu via outra dimensão do tempo, muitas camadas condensadas que remetem a um tempo melhor, que trazem indícios fragmentários do passado”. Por isso, em muitas fotografias da série, Burch se detém nas pequenas coisas: uma manteigueira sobre a mesa, um prato quebrado no chão, a reprodução técnica de uma representação pictórica de uma caçada que se reproduz uma vez mais na imagem fotográfica, uma folhagem, um disco de Roberto Carlos, lençóis amassados, marcas e sombras indefinidas no asfalto etc.Esses rastros podem ser vistos como metonímias das pessoas que ali vivem. Nos quatro bairros em que esteve, Burch visitou os moradores duas ou três vezes a fim de observar seus hábitos, seus gestos, a forma como se relacionavam entre si e com a arquitetura. Com base em tal observação, pediu, no último encontro, que assumissem poses pré-determinadas. Daí, seus registros adquirirem deliberadamente um ar pouco natural, embora as posições adotadas sejam corriqueiras: “O gesto, que foi espontâneo em algum momento, era agora encenado, o ambiente se tornava teatral”, explica.O estranhamento que decorre dessa prática é afim à atmosfera um tanto fantasmática de certos registros. Por vezes, algo se interpõe diante do objeto fotografado: um vidro, um véu, uma luz que entra difusa. Há um flash que estoura ou um enquadramento que não permite saber exatamente o que estamos vendo, como se Burch quisesse apreender o que nos escapa: o tempo.A exposição As durações do rastro não poderia ter melhor acolhida do que no único prédio construído por Álvaro Siza Vieira no Brasil: a Fundação Iberê Camargo. Aqui, em consonância com a estranheza perseguida por Jordi Burch, as fotografias da série não estão divididas, de modo documentário, por conjunto habitacional representado, mas, de modo poético, por afinidades nos temas, nas formas e nas imagens que elas trazem, misturando os bairros, as gentes e as cidades.

Veronica Stigger

 

Imagem: Vista parcial da exposição “As durações do rastro: a fotografia de Jordi Burch frente à arquitetura de Álvaro Siza Vieira”, que esteve em cartaz na Fundação Iberê Camargo de 16 de junho a 05 de agosto de 2018. Foto © Fabio Del Re_VivaFoto

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