Caixa-preta

18.ago

28.out.18

Sempre que ocorre um acidente aeronáutico, a principal fonte de informações para os investigadores é a chamada caixa-preta. Mesmo quando o avião se reduz a ínfimas partes e a tripulação desaparece, há a esperança de encontrar aquele aparelho intacto: afinal, nele, está registrado tudo que se passou durante o voo – das conversas mais banais entre os pilotos e o pessoal de terra até os diálogos mais dramáticos que acompanham panes, choques, quedas, dos dados rotineiros de qualquer viagem até os dados derradeiros dos momentos críticos.

Mesmo quando nenhum acidente acontece, a caixa-preta é uma espécie de secreto e inquietante companheiro de viagem, que sempre está lá, sem que os passageiros saibam muito bem onde, a registrar exatamente o não-acontecimento, mas já aí como entrevisão da possibilidade da catástrofe. Na caixa-preta, coexistem, portanto, informação decisiva (o que realmente aconteceu) e excesso semiótico (o máximo de sinais pode equivaler, na ausência de acidente, ao mínimo de significado).

Talvez tenhamos aí uma boa metáfora para pensarmos a relação entre arte e mundo – e mais especificamente entre algumas obras de arte e o atual momento político do país e do mundo, mas também entre essas obras e o sistema das artes. É generalizada a percepção de estarmos vivendo um momento de crise (crise política, crise econômica, crise da “representação”, crise dos “valores” etc.), assim como é generalizada também a sensação de uma certa apatia que não seria condizente com a violência dessa crise múltipla. Em que medida, podemos nos perguntar, essa aparente apatia não esconde formas mais sutis de reação e registro, condizentes com uma noção de história – do mundo, mas também da própria arte – como sucessão de acidentes?

Esta exposição reúne algumas caixas-pretas singularíssimas: caixas-pretas a serem localizadas, abertas, interpretadas e reinterpretadas se queremos ver e dar a ver o sentido do que nos acontece.

Bernardo José de Souza, Eduardo Sterzi, Fernanda Brenner e Verônica Stigger

 

Imagem: Van Diest. O Rejalma, 1673. Doação Wilma Berta. Pinacoteca Ruben Berta ⓒ Foto F.Zago-StudioZ

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