Daniel Senise: Antes da Palavra

04.ago

29.set.19

Antes da palavra, paisagens e ações

Sem árvores, rochedos, marinas ou campinas, a paisagem na obra de Daniel Senise é imagem não-naturalista de aspecto volátil a ser decodificada pelo sistema de pensamento e signos de uma época cuja arte se afasta da representação, e torna o motivo da obra o modo como ela se insere no plano da chamada realidade. Atuante desde os anos 1980, o artista refinou até o limite do apagamento a figura em construções conceituais sobre o universo da pintura, sua tradição acadêmica e a dicotomia natureza/cultura na arte; aprofundou investigações de técnicas, materiais e suportes, alcançando resultados que obliteraram a ilustração.

A ausência na presença é um paradoxo explorado por Senise. A paleta cromática baixa e os planos espaciais vazios ligam-se a questões do tempo inexorável e a finitude, como no motivo Vanitas, associado ao gênero da natureza-morta na pintura européia do século 15 e à poesia barroca. Por sua vez, a onipresente forma tela-pintura-janela em sua obra é tautológica e aponta o niilismo de trabalhos cujas discussões orbitam em torno de seus próprios materiais marcados por tempos de uso ou esquecimento, ativadores de memórias de cotidianos não-artísticos.

Apresentamos 23 trabalhos entre pinturas e objetos, articulados em torno da instalação 1.587, constituída por duas grandes telas suspensas frente a frente no átrio da Fundação, cujas lonas são lençóis usados em um motel carioca e no Instituto Nacional do Câncer, Rio de Janeiro. O título decorre do cálculo de pessoas que passaram por esses lençóis ao longo de seis meses, em ambos estabelecimentos. Os números das presenças/ausências impregnadas nos tecidos foram alcançados por um matemático, e nomeiam cada tela: “Branco 237” refere-se à movimentação no hospital, enquanto “Branco 1.350”, no motel. Somadas, atingem 1.587 dramas e êxtases de desconhecidos amalgamados na obra. Em Porto Alegre vê-se uma versão menor do trabalho original, 2.892, criado no final dos anos 90 e exibido em 2011 na Casa França-Brasil, Rio.

Em diálogo com as obras de Antes da Palavra, uma programação de intervenções sonoras traz à Fundação Iberê Camargo ações de artistas que pensam o som espacial, material e conceitualmente, mais além da estrutura melódica. São eles: Marcelo Armani, Ricardo Carioba, Raquel Stolf, Pontogor, Tom Nóbrega e Felipe Vaz. Suas proposições indicam deslocamentos temporais, ausências, espaços virtuais, interrupções, assincronia e outros motes integrados às idéias primordiais da pós-pintura de Senise.

Daniela Labra