Iberê Camargo: quem sabe, o tempo…

Curadoria

Carmela Gross

18.abr

28.mar.27

Ao ler pela primeira vez o conto de Iberê O relógio, me perguntei se não seria propriamente este o cerne da atividade do artista. Como se o tempo de Iberê fosse, ele mesmo, espesso como a lama, a terra úmida, a massa pastosa dos excrementos, da tinta – misturada, amassada pelos braços, pernas, pés, mãos… pelo corpo inteiro; e, nesse tempo, o tique-taque uniforme do relógio e da vida programada teria sido substituído pelo esforço de um trabalho insano, desmedido, só guiado por uma lembrança afetiva e desejante, pela busca esperançosa de um achado.

Neste conto, Iberê nos conduz à amplitude de seu pensamento por meio de palavras tão intensas como sua própria pintura, não para decifrá-la, mas para, sensivelmente, participarmos dela por meio de imagens extraordinariamente fortes – uma maneira áspera e aguda de buscar uma cor sobre outra cor, a matéria opaca de muitas misturas, os motivos repetidos ou reencenados a cada vez, dia e noite, sem sossego…

Quando fui convidada para fazer a curadoria desta exposição, busquei na memória as muitas e muitas pinturas que visitei em exposições, e tantas outras que revi em reproduções de livros. Mas não era sobre a pintura de Iberê que eu queria falar. Queria falar de um tempo que antecede à pintura, o tempo do desenho. E o desenho é outra coisa… a atenção ao pequeno, ao efêmero, as anotações distraídas sobre um papel qualquer, ensaios, repetições, rabiscos, rasuras, linhas incertas, restos, excessos, sombras… um ir e vir de perguntas sem respostas… enfim, coisa mental, no registro de Leonardo da Vinci.

E há muitos desenhos do artista conservados nos arquivos da Fundação. Pude examinar, um a um, os quase 4 mil guardados e classificados em seus arquivos virtuais (preservados e cuidados por atentos e dedicados colaboradores). Que maravilha! É como uma arca de Noé, que nos convoca a viajar pelo universo Iberê. Impossível selecionar. Eu queria tudo! Mostrar tudo! Claro que não dava…

Nos passeios virtuais pela coleção de desenhos, eu e minha assistente, Carolina, passamos semanas a fio na tarefa, ao mesmo tempo cansativa e prazerosa, de escolher cada exemplar – agrupamentos diversos… conjuntos, separações, novos ajuntamentos, acertos e dúvidas; um sem fim de listas e tabelas numeradas, refeitas a cada dia, ponderando cada escolha pelo gosto ou pelo entusiasmo da descoberta… assim, chegamos a 1.091!

Decidi organizá-los em pranchas de 1,20 por 0,80 m, compondo, no interior de cada plano, ao acaso, um mosaico de peças irregulares. Ao todo são 93. Juntos e ordenados em sequência, eles formaram virtualmente amplas janelas – janelas abertas nas paredes sólidas do edifício do museu, simbolicamente abertas, de par em par, para o mundo lá fora.

Carmela Gross
Curadora

 

Imagem: Iberê Camargo. Sem título, sem data. Foto © Anderson Astor