Iberê Camargo: Tudo te é falso e inútil

02.out

30.jan.22

Esta exposição propõe uma experiência imersiva nos últimos anos da obra de Iberê Camargo, a partir das célebres pinturas da série Tudo te é falso e inútil, reunidas pela primeira vez na Fundação Iberê. Selecionada pelo artista Lucas Arruda, cuja mostra individual “Lucas Arruda: Lugar sem lugar” se encontra no piso superior, em colaboração com a curadora Lilian Tone, a apresentação explora momentos de intersecção e diálogo entre o trabalho dos dois pintores, e busca sugerir pontos de acesso ao entendimento de questões compartilhadas por ambos.

Considerado o último corpo de trabalho finalizado por Iberê Camargo, a série Tudo te é falso e inútil parece ser para onde converge – e de certa forma submerge – toda a sua trajetória artística. Elementos constitutivos do léxico singular do artista – carretéis, manequim, bicicleta – compartilham com figuras débeis e pesadas, quase andrógenas, o lugar elusivo e movediço demarcado pelas pinturas e desenhos. Como escreveu o próprio Camargo: “No meu andarilhar de pintor, fixo a imagem que se me apresenta no agora e retorno às coisas que adormeceram na memória, que devem estar escondidas no pátio da infância.”

A seleção de trabalhos aqui expostos – que inclui pinturas e desenhos das séries Ciclistas e Idiotas, além da série completa e esboços preparatórios para Tudo te é falso e inútil – busca justamente explicitar o processo obsessivo desse “retorno das coisas que adormeceram na memória,” onde a re-emergência dos mesmos elementos oferece ao espectador uma imersão profunda no imaginário singular do pintor.

Desde o primeiro encontro do artista paulista com as pinturas da série Tudo te é falso e inútil, há seis anos, no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, elas se tornaram uma forte referência para seu trabalho. Arruda conta que voltou repetidas vezes à exposição para ver as pinturas: “O que mais me impressionou, nessa série, foi o perfeito alinhamento entre a execução e o assunto do trabalho. O drama daquelas imagens não reside somente no conteúdo, mas em como Iberê as construiu, no modo como a tinta é posta e raspada, riscada, depositada e removida múltiplas vezes, resultando na fantasmagoria das figuras. A angústia do tema é expressa na própria carne da pintura. Parece existir uma ansiedade no fazer estreitamente conectada ao assunto, o que traz uma potência muito grande para o trabalho. Essa qualidade da pintura do Iberê foi uma das coisas que mais me chamou a atenção.” Em Tudo te é falso e inútil, aponta Arruda, “Iberê tenta captar esse momento em que as coisas perdem sentido”. No entanto, a despeito da atmosfera distópica, “da evidente falta de otimismo manifesta nas pinturas”, acrescenta, “é notável a capacidade desse trabalho de gerar um consolo à inquietação existencial do ser humano”.

Curadoria: Lucas Arruda e Lilian Tone

 

Imagem: Iberê Camargo. “Tudo te é falso e inútil II”, 1992. Foto © Rômulo Fialdini