Modelar no tempo: Iberê e a moda

01.maio

04.jul.21

Do vestido em linha reta dos anos 1920 aos excessos dos anos 1980, a moda está presente em diversos trabalhos de Iberê Camargo.

Em 1959, Iberê produz uma série de estudos de figurinos para o balé As Icamiabas.
Com libreto de Circe Amado, música de Cláudio Santoro e coreografia de Harald Lander, a peça foi inspirada em um conjunto de lendas e documentos legados pelos primeiros conquistadores e cronistas que estiveram na selva amazônica e que tiveram contato com tribos de mulheres guerreiras.

Entre 1963 e 1964, o artista cria estampas para a Rhodia, empresa francesa que trouxe para o Brasil o fio sintético e seus bombásticos desfiles-show.
Com flores tropicais em crepnyl rhodianyl violáceo, o guache de Iberê ganhou forma em conjunto único desenhado por Dener para a campanha de divulgação da marca. No ano seguinte, Iberê cria uma estampa verde-azulada para tecido musselina. Os dois vestidos originais, apresentados nos desfiles, ainda não foram localizados.

É também entre 1960 e 1964 que Iberê pinta um pequeno número de saias e vestidos para presentear amigos.

Em 1966, o artista é fotografado em seu ateliê para o editorial da revista Cigarra.

No final de 1985, ao observar as vitrines do centro de Porto Alegre, dá início a uma de suas séries mais emblemáticas, a dos Manequins.

Em 1986, participa de evento de moda, produzindo uma pintura de grandes dimensões para um desfile no Museu de Arte do Rio Grande do Sul. “Como já estava pintando manequins de vitrines, achei interessante poder retratar modelos vivas com toda beleza e feminilidade de quem veste moda. Fiquei encantado com a ideia e penso que a moda é uma moldura da beleza feminina. Além de ter achado muito interessante conjugar a arte com a moda dentro do museu”, diz Iberê, que assistiu ao desfile na primeira fila.

Depois disso, volta-se novamente para a artificialidade dos manequins, desta vez, com cores mais sombrias: “O manequim é o protótipo da sociedade de consumo, o simulacro da realidade. As pessoas vivem dentro de caixas, assim como os manequins vivem dentro de vitrines”, afirma. Com o tempo, em contraste, os manequins passarão a dividir espaço com corpos nus e fora do padrão na obra de Iberê, até a sua fase derradeira.

Esta trajetória do artista, ainda pouco explorada, permitirá, no futuro, conjugar sua arte com a moda em uma grande exposição.

 

Gustavo Possamai
Responsável pelo acervo da Fundação Iberê

 

 

Imagem: Iberê Camargo. Estudo para a pintura Manequins da Rua da Praia, 1986. Foto © Fábio Del Re_VivaFoto