Modelar no tempo: Iberê e a moda

01.maio

22.ago.21

Pela primeira vez, a Fundação Iberê revela o “passeio” do pintor gaúcho pela moda através de obras e documentos do acervo da instituição.

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Do vestido em linha reta dos anos 1920 aos excessos dos anos 1980, a moda está presente em diversos trabalhos de Iberê Camargo.

Em 1959, produz uma série de estudos de figurinos para o balé As Icamiabas. Com libreto de Circe Amado, música de Cláudio Santoro e coreografia de Harald Lander, a peça foi inspirada em um conjunto de lendas e documentos legados pelos primeiros conquistadores e cronistas que estiveram na selva amazônica e que tiveram contato com tribos de mulheres guerreiras.

Entre 1963 e 1964, Iberê criou estampas para a Rhodia, empresa francesa que trouxe o fio sintético para o Brasil. As coleções da Rhodia eram apresentadas na Feira Nacional da Indústria Têxtil (Fenit), em desfiles-show que tinham uma extraordinária força midiática. A primeira estampa, com flores tropicais para tecido crepnyl rhodianyl violáceo, ganhou forma em conjunto único desenhado por Dener Pamplona, um dos pioneiros da moda no Brasil, para a campanha de divulgação da marca. No ano seguinte, produziu uma estampa verde-azulada para tecido musselina. Os dois vestidos originais, possivelmente apresentados nos desfiles, ainda não foram localizados. É também entre 1960 e 1964 que Iberê pintou um pequeno número de saias e vestidos para presentear amigos.

No final de 1985, ao observar as vitrines do centro de Porto Alegre, Iberê Camargo deu início a uma de suas séries mais emblemáticas, a dos Manequins.

No ano seguinte, participou de um desfile de lançamento das coleções outono/inverno do Grupo de Moda Vanguarda Sul, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), produzindo um óleo sobre tela de grandes dimensões (180 x 213 cm), em que retratou as manequins Crislaine, Cláudia e Bebel. “Como já estava pintando manequins de vitrines, achei interessante poder retratar modelos vivas com toda beleza e feminilidade de quem veste moda. Fiquei encantado com a ideia e penso que a moda é uma moldura da beleza feminina. Além de ter achado muito interessante conjugar a arte com a moda dentro do museu”, disse Iberê na época.

Depois disso, volta-se novamente para a artificialidade dos manequins, desta vez, com cores mais sombrias: “O manequim é o protótipo da sociedade de consumo, o simulacro da realidade. As pessoas vivem dentro de caixas, assim como os manequins vivem dentro de vitrines”, afirma. Com o tempo, em contraste, os manequins passarão a dividir espaço com corpos nus e fora do padrão na obra de Iberê, até a sua fase derradeira.

Esta trajetória do artista, ainda pouco explorada, permitirá, no futuro, conjugar sua arte com a moda em uma grande exposição.

 

Gustavo Possamai
Responsável pelo acervo da Fundação Iberê

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Para acessar depoimentos e parte das obras e dos documentos expostos, clique aqui.

 

 

Imagem: Iberê Camargo. Estudo para a pintura Manequins da Rua da Praia, 1986. Foto © Fábio Del Re_VivaFoto

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