Se o paraíso fosse assim tão bom

26.jan

17.mar.19

Cecily Brown é uma das artistas de maior destaque na pintura contemporânea mundial. Na década de 1990, quando ela começou a produzir em meio a uma ascendente e vigorosa geração de artistas britânicos de matriz conceitual, sua adesão à pintura e seu interesse em observar, atentamente, a obra dos grandes mestres podia soar inusitada. Hoje, está claro que as diversas camadas de diálogo estabelecidas por Brown com a história da arte alimentam uma prática experimental singular. O aspecto mais destacado pela crítica é sua habilidade de fazer pulsar imagens no interior de dinâmicas camadas de tinta, sem distinguir definitivamente figuras e fundo, ou forma e matéria.

Nesta exposição, as conversas sobre a definição das obras passam pela história da arte, envolvendo artistas tão diversos quanto Hieronymus Bosch, Michelangelo Buonarroti, Jan Brueghel e Peter Paul Rubens. O ponto em comum entre essas referências e as obras de Brown é o interesse pelo paraíso. Na visão dela o paraíso é um campo de batalha, no qual forças opostas do bem e do mal, da luz e da escuridão, estão em perpétuo estado de tensão. Tal estado manifesta-se em cores, corpos e movimentos que transpiram um dinamismo desafiador à ordem estática da pintura. Como lastro criativo, aludem ao tratamento dado a cenas paradisíacas pintadas por artistas canônicos, nas quais humanos e bestas coexistem em uma irrealidade que é tão exuberante e fecunda quanto melancólica. Para Brown e os artistas que a antecederam, o paraíso parece ser interpretado como cenário de uma dança delicada, um duelo de forças, ao mesmo tempo sedutor e agourento, que demarca a natureza do paraíso: um ideal inatingível e irresistível.

Um agradecimento especial ao estúdio de Cecily Brown, a Andrea Crane e à própria artista, cujo entusiasmo por expor no Brasil foi inspirador e indispensável. exibindo um conjunto representativo de sua obra. A lealdade à velha pintura, ao mesmo tempo em que experimenta algo novo, revelando a complicada relação entre figuração e abstração e um certo jogo entre forças tradicionalmente antagônicas – como o bem e o mal ou a calma e o dinamismo. Por tornar isso possível, é preciso agradecer a Ricardo Kugelmas, que iniciou diálogos e criou pontes; ao Britsh Council e em especial ao Instituto Tomie Ohtake.

 

Imagem: Cecily Brown. There’s No Right Ways to Do Me Wrong [Não há jeito bom de me fazer mal], 2014. Foto © Divulgação.