Feminismo(s): visualidades, ações e afetos

20.maio.20

Por ANDREA GIUNTA
Curadora da 12ª Bienal do Mercosul

O título da 12ª Bienal do Mercosul instala uma interrogante que remete ao atrito central da cultura democrática contemporânea: a participação da sociedade a partir do conceito de diferença entendida como multiplicidade e não como separação. Toma também como ponto de partida as perguntas propostas pela teórica Nelly Richard em seu livro “Masculino/Feminino” (1993), que, em determinados sentidos, reinscreviam no contexto latino-americano das transições democráticas as reflexões sobre o filme de Jean-Luc Godard (1966). As interrogantes remetem ao lugar social do feminino às suas construções, seus riscos e o salto a respeito das lógicas binárias excludentes.

As perguntas estão plenamente vigentes, especialmente em um momento em que o feminino retoma agendas não cumpridas desde os anos 1970, recolhe os questionamentos dos 90 e amplia suas urgências como consequência no incremento da violência contra as mulheres e os feminismo(s) LGBT+; o aumento da pobreza e os sistemas de exclusão e de discriminação; a observação crítica e atenta dos programas que observam os recursos naturais do planeta.

A Bienal propõe elaborar um contrato sensível, uma zona de intercâmbios de visualidades, ações e afetos que permitam confirmar a riqueza da vida democrática sem fugir da sua complexidade. Feminino(s) destaca a relevância da criatividade para fracionar limites e condicionamentos. Inspira-se, nesse sentido, em uma frase poética de Carolina Maria de Jesus, camponesa, poeta e cronista afro-brasileira, que encontrava intervalos entre o trabalho e o cuidado dos seus filhos para a literatura. Ela escrevia na riqueza da favela, apesar das limitações impostas por violências raciais (pós) coloniais. Escrevia “Até a chuva passar”.

A palavra e as imagens foram depositadas nas suas folhas, desenhando territórios que apontam para uma liberdade possível. Porque a escrita explora os limites que as circunstâncias determinam sobre a linguagem. A essas condições de criação, provavelmente, se referia Clarice Lispector quando falava sobre a tarefa de trilhar impossibilidades: “Não posso escrever tudo o que sei”. Escrevia ao mesmo tempo em que se referia ao “luxo do silêncio”.

Mais que a obviedade dos sentidos, deslocados em um tempo em que os lugares comuns se veem reduzidos, em uma comunicação plena, o diagrama expositivo da Bienal aponta à leitura atenta de uma comunidade interpretativa capaz de abordar uma malha de sensibilidades e discursos que admitem o dissenso como mola da argumentação e da deliberação.

Feminismo(s) se concentra nas propostas de artistas mulheres e de todas as sensibilidades não binárias, fluídas, não normativas. Principalmente aquelas que se expressam na sua oposição às mais diversas formas de violência. Feminismo(s) se expande com as propostas de artistas homens que, como sócios ou aliados, compartilham o desejo de uma ordem social menos opressiva e discriminatória em termos de gênero. Feminismo(s) se enriquece com a criação daqueles que trabalham com materiais e técnicas tradicionalmente atribuídos às artes do feminino e, portanto, consideradas inferiores. Feminismo(s) aspira a compartilhar o exercício coletivo de inventar novas formas de fazer, de dizer, de pensar e de criar. Uma plataforma que atue como um fórum e como um coro de expressões e escutas. Quer funcionar como um espaço no qual se dê a mutação da estrutura tradicionalmente excludente das representações simbólicas e culturais que regem o mundo das artes.

Nesse sentido, a Bienal não deseja pousar em Porto Alegre como um objeto estranho, mas sim, dialogar intensamente com o lugar. Muitas das suas obras terão origem na participação das pessoas. A dimensão educativa passa a ser um elemento chave para criar territórios de intercâmbios, debates e encontros entre os diferentes públicos que atravessam e criam as suas próprias bienais.

A Bienal se propõe como um espaço de celebração coletiva do pensar e do criar juntos para fazer frente, com liberdade e imaginação crítica, aos novos desafios de fortalecer um pacto democrático que amplie e diversifique os contornos da cidadania.