Juçara Marçal desembarca em Porto Alegre com repertório inspirado na obra de Agnès Varda
A apresentação organizada com a Fundação Iberê, o Instituto Moreira Salles e a Juba Cultural terá duas sessões no dia 13 de setembro, às 17h e 20h, na Cinemateca Capitólio. O espetáculo integra a programação da exposição de uma das principais referências da Nouvelle Vague francesa na Fundação Iberê. Ingressos antecipados pelo SYMPLA
Agnès Varda (1928–2019) viverá para sempre na alma de quem já se deparou com a sua obra. Cineasta, fotógrafa e artista plástica, ela construiu uma trajetória que se volta menos para grandes feitos e mais para as pessoas anônimas, gestos e histórias que costumam escapar do enquadramento oficial. Inquieta e inovadora, pioneira da nouvelle vague francesa, da luta feminista e de causas sociais, ela colocou em filmes e imagens a sua grande paixão pelas pessoas comuns.
Agora, a vida e obra de Varda será tema de uma sessão com comentário musical, de Juçara Marçal, na Cinemateca Capitólio. No dia 13 de setembro (domingo), a cantora e compositora carioca conduzirá duas apresentações, às 17h e às 20h, ao lado de Kiko Dinucci (guitarra e sampler) e Juliana Perdigão (clarone, clarinete e sampler). Os ingressos custam entre R$ 90 (inteira) e R$ 45 (meia-entrada), e as vendas abrem no dia 13 de agosto.
Serão exibidos os curtas A Ópera-Mouffe (1958) e Os Panteras Negras (1968), ambos dirigidos por Varda, em cópias restauradas. As exibições serão intercaladas por apresentações dos músicos, que interpretarão canções em diálogo com as imagens e os temas dos filmes. Também serão projetadas fotografias de autoria de Varda, com o trio tocando simultaneamente.
O repertório inclui composições próprias de Juçara e canções de artistas que dialogam com a obra de Varda. O espetáculo também trará momentos de improvisação livre, com sonoridades inspiradas nos movimentos de câmera da cineasta, suas cores, personagens e a fluidez dos roteiros.
O show integra a programação da exposição da cineasta e fotógrafa Agnès Varda, que abre no dia 12 de setembro (sábado), na Fundação Iberê. Organizada pelo Instituto Moreira Salles, em colaboração com a Fundação e o Ciné-Tamaris, Fotografia AGNÈS VARDA Cinema tem curadoria de João Fernandes, diretor artístico do IMS, e Rosalie Varda, diretora do Ciné-Tamaris e filha da artista. A mostra reúne cerca de 200 fotografias captadas principalmente nas décadas de 1950 e 1960 em viagens à China, Cuba, EUA e Paris, e promove diálogos com seus filmes, evidenciando o olhar afetuoso, político e bem-humorado da artista.
Iberê é a primeira instituição a receber a itinerância de Fotografia AGNÈS VARDA Cinema, após sua apresentação no IMS Paulista. A mostra oferece ao público um panorama da produção fotográfica de Agnès Varda, em diálogo com sua obra cinematográfica.
A exposição foi planejada para ser apresentada no Brasil como resultado de um recorte curatorial específico que privilegiou temas relevantes, como uma atenção particularmente sensível à representação das condições de vida das mulheres e das crianças, a solidariedade com povos que lutam pela sua emancipação num mundo pós-colonial, a questão racial e a desigualdade social. Rosalie e Fernandes partiram de um acervo de mais de 30 mil negativos para a pré-seleção. Pensado tanto no que representava o trabalho de Agnès quanto no diálogo com nosso país, o filtro fica visível quando correlacionados aos Griôs e ao Teatro Experimental do Negro no Brasil ou às manifestações religiosas cubanas que ressoam com as tradições afro-indígenas brasileiras.
A multiplicidade de Juçara Marçal
Com mais de 30 anos de carreira, a potente e inquieta Juçara Marçal debruçou-se a trabalhos em que pudesse pesquisar sobre a música brasileira, descobrir minúcias e jeitos diferentes de fazer. Seu nome mudou o cenário alternativo cultural nos últimos anos, sobretudo em São Paulo.
Juçara nasceu em 1962, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, filha de uma costureira tornada funcionária pública e de um cozinheiro da Marinha. Aos 8 anos, mudou-se com a família para São Caetano do Sul, depois São Sebastião, até se mudar para a capital paulista. Formada em duas faculdades – Jornalismo e Letras –, é mestre em literatura brasileira pela USP, deu aulas em uma universidade privada, de canto e de locução.
Sua longa trajetória começa nos anos 1990 com o grupo Vésper Vocal, formado só por mulheres cantando à capela. Em 2000, partiu para as viagens com A Barca, um grupo paulista que pesquisa gêneros tradicionais brasileiros. Formado por ela (voz), André Magalhães (bateria e percussão), Ari Colares (percussão), Chico Saraiva (violão), Lincoln Antonio (piano), Marcelo Pretto (voz), Renata Amaral (contrabaixo elétrico), Sandra Ximenez (voz) e Thomas Rohrer (rabeca e saxofone), o grupo cria arranjos e composições inéditas inspiradas nas manifestações populares e tradicionais pesquisadas. “A Barca foi um divisor de águas na minha carreira, porque me abriu um leque de conhecimento da música tradicional brasileira, que até então eu não tinha”, relembra a cantora, que está no grupo desde sua formação.
Em 2008, o encontro com Kiko Dinucci, registrado no disco Padê, abre caminhos para a formação do trio Metá Metá, com Thiago França, que acaba de lançar o seu terceiro disco, MM3. Em 2014, lança seu primeiro disco solo, Encarnado, ao lado dos parceiros Dinucci, Rodrigo Campos e Thomas Rohrer. Mas foi só em 2015, graças a um dos prêmios conquistados pelo álbum, que pôde se dedicar apenas à música. Parte de seu trabalho é marcado pelo antirracismo, feminismo, questões sociais e pela ancestralidade. Tudo sob uma ótica poética fundamentada em timbres diferenciados que buscam uma música eletrônica distante dos clichês e que abrem espaço para novos ares e novos ritmos.
A artista já colaborou com artistas como Jards Macalé, Marcelo D2 e Emicida e gravou mais de uma dúzia de álbuns – com o Metá Metá, foram três, além de uma trilha sonora para um espetáculo do Grupo Corpo. Em 2021, lançou seu segundo disco solo, o Delta Estácio Blues, que conquistou duas categorias selecionadas pelo Superjúri do Prêmio Multishow 2021, com o título de “Canção do Ano” com a faixa Crash e “Álbum do Ano”.
Sobre os músicos
Kiko Dinucci é compositor, guitarrista e produtor. Fundou os grupos Metá Metá e Passo Torto. Colaborou com artistas como Elza Soares, Jards Macalé, Criolo, Tom Zé, Marcelo D2 e Arnaldo Antunes. Seu álbum Rastilho (2020) foi eleito melhor disco do ano pela APCA. Com seu trabalho solo ou em parcerias, Kiko já se apresentou em festivais internacionais como Primavera Sound, Transmusicales, Roskilde e Le Guess Who, tendo seu trabalho reconhecido em matérias elogiosas no The Guardian, Wire, Downbeat, Libération, Les Inrockuptibles, Télérama e Pitchfork.
Juliana Perdigão é cantora, compositora e instrumentista. Possui 4 álbuns lançados: Álbum Desconhecido (2011), Ó (2016), Folhuda (2019) e Dúvidas (2020). Juliana foi reconhecida por sua excelência musical pela Rolling Stone Brasil, por seus quatro álbuns e pela participação em projetos de grande evidência, como os de Nuno Ramos. A artista possui graduação em Música pela UFMG, toca clarinete, flauta e clarone. Em março de 2026, lançou o EP “Machamba”. Tem parcerias com Tom Zé, Romulo Fróes, Ava Rocha e com a poeta Angélica Freitas.
Projeto concebido e desenvolvido pelo Instituto Moreira Salles (IMS), por ocasião da exposição Fotografia AGNÈS VARDA Cinema.
FICHA TÉCNICA
Agnès Varda por Juçara Marçal | Projeto concebido e desenvolvido pelo Instituto Moreira Salles (IMS), por ocasião da exposição Fotografia AGNÈS VARDA Cinema, em uma parceria entre as áreas de Cinema, Música e Exposição
Juçara Marçal: voz e sampler
Kiko Dinucci: guitarra, sampler
Juliana Perdigão: voz, sampler, clarinete e clarone
Produção local: Juba Cultural
Instituto Moreira Salles
Curadoria musical: Juliano Gentile
Curadoria e programação de cinema: Kleber Mendonça Filho, Marcia Vaz, Thiago Gallego, Renata Alberton e Lucas Gonçalves
Curadoria da exposição: João Fernandes e Rosalie Varda
Assistência curatorial: Horrana de Kassia Santoz