Qual a cor da sua pele?

29.abr.19

Talvez essa pergunta jamais seja respondida pela artista plástica e fotógrafa Angélica Dass, que, de 2012 até agora, registrou mais de 4 mil rostos de pessoas em 19 países – num universo de cerca de 7,6 bilhões de pessoas – para mostrar que não existem apenas brancos, negros ou pardos.

Ela já encontrou humanos multicoloridos em lugares como Madri, Barcelona, ​​Getxo, Bilbao e Valência (Espanha), Paris (França), Bergen (Noruega), Winterthur, Chiasso (Suíça), Groningen, Haia (Holanda), Dublin (Irlanda), Londres (Reino Unido), Tyumen (Rússia), Gibellina e Vita (Itália), Vancouver (Canadá), Gambier, Pittsburgh e Chicago (EUA), Quito (Equador), Valparaíso (Chile), São Paulo e Rio de Janeiro (Brasil), Córdoba (Argentina), Nova Delhi (Índia), Daegu (Coréia do Sul), Addis Abeba (Etiópia). Um diferente do outro.

A carioca radicada em Madrid segue trabalhando na criação de um grande mosaico, onde cada retrato é apresentado num papel de parede da cor correspondente ao da pele da pessoa. A cor é determinada a partir de um quadrado de onze pixels, retirado da ponta do nariz do modelo.

Denominado de Humanæ, o projeto é um inventário cromático que reflete sobre as cores, além das fronteiras de nossos códigos, usando como referência o sistema de cores PANTONE®. É como se Angélica criasse uma paleta da pele das pessoas baseada no Pantone Humano. O Humanæ vem com o forte intuito de abolir a discriminação e encorajar o diálogo sobre os estereótipos e preconceitos que condicionam nossas percepções.

O trabalho da artista pode ser visto na 12ª edição do Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre – FestFoto, Da Diáspora: Identidade, Hibridismo, Diferença, que acontece de 27 de abril a 26 de maio pela primeira vez na Fundação Iberê.

Como surgiu o Humanæ?
Angélica Dass – As duas primeiras fotos do Humanæ foram minha e do meu marido espanhol, que é de família belga. Como ele é rosa, todos lá perguntavam qual seria a cor do nosso filho. Na Europa, as pessoas não estão acostumadas com isso, com essa mistura como no Brasil.

Em setembro de 2011 comecei o mestrado e, em abril de 2012, fiz uma viagem ao meu país. Como nessa época eu já tinha ideia do projeto, decidi fotografar minha família, que é especialmente colorida. Meu pai é negro adotado por uma família branca. Então minha vó é rosa pink, com nariz rosa e meu pai é marrom. Do outro lado, minha mãe é de uma família de mistura indígena e afrodescendente e que adotou uma menina branca.

Ao voltar para Espanha, decidi que continuaria fotografando as pessoas e que esse seria meu trabalho de conclusão de curso. Foi então que um galerista de Barcelona, que eu conheci no Brasil, me convidou para a primeira sessão pública do Humanæ. Montamos um estúdio na vitrine da galeria, juntamente com uma mostra com as cinco fotos que eu tinha feito da minha família. Quando alguém se interessava, eu contava a história que era mais ou menos assim: “Estou tentando provar que ninguém é branco, preto, vermelho ou amarelo. Você quer ajudar o projeto?”. Em quatro dias consegui cerca de 100 pessoas, e foi quando o Humanæ começou a tomar corpo.

Logo depois fiz outra sessão em Madri e apresentei meu portfólio: uma caixa com alguns dos retratos 30cm x 30cm e, no fundo, uma pantoneira (cartela com amostras de cores na escala Pantone®) com os retratos que tinha até então.

Quantas cores humanas você já detectou?
Angélica – São mais de 4 mil fotos e não faço a menor ideia de quantas cores eu tenho, porque o objetivo do Humanæ não é buscar a cor específica da pessoa. Nesse trabalho, eu uso um quadradinho do nariz da pessoa, que é a parte do corpo que muda a cor muda quando se vai à praia, está resfriado ou alcoolizado, por exemplo. A cor no verão é diferente da cor do inverno, da primavera e do outono. Portanto, a cor que aparece na foto é de um breve segundo em que eu fiz a foto. O meu objetivo aqui é provar que essa classificação de branco e preto é uma construção. Isso está provado.

Estive recentemente no Exploratorium, um dos mais importantes museus da ciência dos Estados Unidos, localizado em São Francisco, onde farei uma exposição do Humanae, pois o meu trabalho está totalmente alinhado ao conceito deles: raça é uma construção social, não existe científica e biologicamente. Então por que a gente continua falando em branco e preto? Por que continuamos ensinando nossas crianças esse conceito de que eu sou negra e o outro é branco? Você aceita – nós aceitamos – que essa construção social seja, todos os dias, reensinada a elas. Isso não significa que nós temos que esquecer o passado, onde se construiu esse conceito de raça, e os impactos dessa construção ainda são muito atuais. Mas alguém sempre pensa que eu sou de uma raça diferente e me trata de maneira inferior.

Então a fotografia é só uma desculpa, é o começo de uma conversa que acontece no mundo da arte, no mundo da educação, mas também no meio da rua. Se alguém lhe ofender com preconceito, pegue minhas fotos e mostre a ele. Isso é Humanæ

Como o projeto se tornou um fenômeno?
Angélica – Como era inviável enviar as fotos a todos que fotografava, criei um Tumblr. Uma das fotos era do DJ canadense Andy Dixon. Ele gostou tanto do resultado que a usou como perfil no Facebook, e isto fez com que amigos dele canadenses e norte americanos, que eu nunca tive contato, conhecessem minhas fotos. As redes sociais tiveram um papel fundamental no projeto.

Pouco antes de eu me formar em 2012, o Humanæ foi mostrado no programa da Oprah Winfrey e na BBC. A partir disso recebi muitos convites, mas achei que aquele não era o momento de apresentar o projeto. Como eu poderia falar de “humanidade” se só tinha feito foto em Madri e Barcelona, onde 90% das pessoas eram rosas?

Foi então, que o artista Eugenio Ampudia e o curador Alejandro Castellote, que faziam parte da minha banca julgadora, acharam interessante e me apresentaram a uma galeria em Chicago. Fui para os Estados Unidos, montamos um estúdio no stand da galeria e as pessoas que visitavam e gostassem do projeto, poderiam fazer parte da minha “família” de retratos. Enfim a experiência foi ótima, pois lá se encontra bastante mistura em todas as camadas sociais, e isso é maravilhoso.

Depois que fiz essa sessão, surgiu uma oportunidade em Paris. Eu tinha amigos que viviam lá e que acharam o máximo a ideia do Humanæ. Fiz as fotos em uma cooperativa que trabalhava com pessoas de rua, e foi incrível, porque eu estava buscando justamente essa diversificação. Não queria mais só pessoas conhecidas, fotógrafos ou galeristas.

Ainda em Paris, escrevi à delegação brasileira da Unesco, um lugar simbólico e que tem a ver com o projeto. Meu pedido foi aceito, paguei a passagem para uma amiga espanhola ir como ajudante e foi assim que o projeto ganhou mais visibilidade.

Sua exposição no PhotoEspaña ganhou o prêmio Festival Off e vieram mais convites para feiras e exposições. São cerca de 4 mil pessoas fotografadas no mundo. Você acha que o Humanæ pode, de fato, abolir o racismo?
Angélica – Ao longo desses quase sete anos percebi que eu não falava apenas sobre mim mesmo ou de cor, mas como nos vemos e a maneira como vemos os outros. A diversidade é um recurso inestimável para a espécie humana. Basicamente, temos duas coisas em comum: somos seres humanos e somos únicos. É a essência de cada um, uma pequena parte de um vasto mosaico humano que emerge neste imenso afresco de fotos.

As cores do racismo, não da pele. Pavimentando o caminho para o preconceito, para um comportamento antissocial profundo, cultural e não biológico.

Como você percebe o racismo no seu país, o Brasil?
Angélica – O Brasil é um dos piores países para ser afrodescendente. Existe uma narrativa histórica diferente em cada país e, mas uma coisa eu posso lhe assegurar: não importa aonde eu vá, em qualquer lugar do planeta, os tons escuros são associados a adjetivos negativos, e os tons claros aos positivos. E nas 4 mil fotos do Humanae, ninguém é branco, ninguém é preto. Todos nós temos antepassados que vieram do Continente Africano e que foram migrando.

Que impacto você já percebeu com o Humanæ?
Angélica – O grande impacto que eu tive foi através da educação, desenvolvendo o Humane com os educadores, a partir de oficinas associadas às exposições. Eu sempre peço a elas que me deem um feedback sobre a impressão do projeto em sala de aula. E os educadores dizem: “Em minha aula, nunca mais um aluno falou ‘lápis cor da pele’. E se alguém fala, os colegas corrigem”. Isso é muito importante, porque eles se corrigem, corrigem os pais, os amiguinhos. Veja quanta cor da pele existe no mundo. Isso me mostra que estamos no caminho certo.

Não sei se serei eu a pessoa que vai viver de verdade o impacto do que estou fazendo, mas as sementes foram plantadas e as arvorezinhas estão começando a crescer.