Seis décadas do Atelier Livre: como Iberê Camargo inseriu Porto Alegre no circuito cultural

23.jul.20

Há 60 anos o curso de Iberê Camargo inspirou o Atelier Livre da Prefeitura, um espaço mantido pelo poder público com custo mínimo aos frequentadores. O espaço não só marcou época e formou gerações de artistas, como é o retrato da resistência que teve à frente nomes como o de Iberê Camargo na construção da sua história. “Não havia em lugar nenhum no Brasil uma iniciativa como esta (…) Nós queríamos algo livre, onde a pessoa entrasse e saísse como quisesse, como pudesse”, disse Xico Stockinger no livro Atelier Livre: 30 anos

Tudo começou em 12 de novembro de 1960. Iberê vivia no Rio de Janeiro há 18 anos, e, numa vinda à Capital gaúcha, aproveitou para participar de um debate no Teatro de Equipe para explicar suas declarações ao jornalista Ruy Carlos Ostermann para o Correio do Povo sobre o “marasmo cultural” de Porto Alegre. O encontro teve também intervenções de Xico Stockinger, Fernando Corona, Carlos Scarinci e Paulo Hecker Filho.

A manifestação causou furor entre os artistas, principalmente do teatro. Istellita da Cunha Knewitz, então diretora do Setor de Cultura da Secretaria Municipal de Educação e Assistência (SMEA), recorda o início do Atelier em depoimento que fará parte da exposição O Fio de Ariadne: “Conheci Iberê quando eu era chefe do Setor de Cultura da Prefeitura. Era 1960 e eu estava organizando a primeira Semana de Porto Alegre. Na época, ele deu entrevista para um jornal dizendo que a cidade era um ‘marasmo na cultura’. A palavra picou o orgulho dos gaúchos e ele foi convidado a ir a um debate para apresentar suas ideias. Na sala cabiam no máximo 100 alunos, mas devia ter umas 200 pessoas. Houve muita discussão, até maltrataram o Iberê, mas ele, sempre muito inteligente, se saiu muito bem”. 

O livro Trem de Volta – Teatro de Equipe, de Mario de Almeida Rafael Guimaraens, também cita trechos de uma matéria de duas páginas publicada na Revista do Globo: “Esse fato, por si só, já demonstra que o marasmo não é assim tão latente (…) Foi a primeira vez que aquelas duzentas ou mais pessoas se reuniram, e com muita disposição, para debater problemas daquela natureza”. 

Foi neste dia que Istellita convidou o artista para ministrar oficinas na Galeria de Arte Municipal, localizada nos Altos do Abrigo de Bondes, onde hoje a Brigada Militar na Praça XV. O chamado “Encontros com Iberê Camargo” aconteceu entre os dias 10 e 30 de dezembro de 1960, e teve como alunos Ana Walkíria Marzulo Borba, Antonio Guttierrez, Carlos Alberto Meyer, Carlos Velasco, Clébio Sória, Edíria Carneiro, Ênio Lippmann, Lêda Flores, Maria de Lourdes Sanches, Neusa Mattos, Paulo Peres, Regina Silveira e Susana Mentz. 

O curso, com a Galeria ocupada para se produzir e não exibir arte, inspirou a que se houvesse um movimento para uma escola livre, sem o engessamento do ensino acadêmico do Instituto de Belas Artes, ao qual não se adaptaram não só Iberê, mas artistas como Vasco Prado e Trindade Leal. Assim, nasceu a ideia para uma escola livre de arte, “Ateliê Livre”, termo também cunhado por Iberê Camargo. Em pouco tempo, com o apoio da Prefeitura de Porto Alegre, por Istellita e também pelo secretário Carlos de Britto Velho, este espaço foi cedido para o empreendimento da escola.

Ao final dos encontros foi realizada uma exposição aberta em 3 de janeiro de 1961, prestigiada por artistas e autoridades e com forte discurso de Iberê: 

“Esta exposição é um esforço e uma resposta. Não pretendia fazer aqui uma análise dos quadros que apresentamos. Prefiro assinalar o significado deste esforço e desta resposta que traduzem inquietação e rebeldia. Eu me alegro com esta inquietação e, com esta rebeldia que conduzem à criação, condição de ser da arte. 

Refiro-me à rebeldia que não excluiu o estudo paciente e tenaz, necessário na elaboração de uma linguagem própria e viva. Nestes 20 dias de trabalho em comum, procuramos estudar o desenho, os ritmos, a composição, os valores cromáticos do quadro, enfim, todos os elementos que constituem a linguagem da pintura. 

Fomos exigentes nesta busca e também fomos humildes: abrimos os livros e dialogamos com Kandinski, Leger, Matisse, Braque, Klee, mestres da pintura contemporânea. Para melhor nos informarmos da evolução de nossos meios, pedimos e recebemos de Carlos Scarinci uma dissertação clara e concisa. Agora podemos dizer que o problema está posto: tomamos consciência das nossas deficiências e formulamos nossos propósitos. Este movimento foi uma arrancada. É intenção dos jovens expositores prosseguir, associados num atelier livre.

Este propósito já encontrou acolhida no espírito de elite do nosso secretário de Educação e da municipalidade, prof. Carlos de Britto Velho. Também contamos com o apoio da profª Istelita da Cunha, que teve a iniciativa dos encontros e, desde a primeira hora, colocou todos os meios à nossa disposição. Não quero deixar de associar esta iniciativa à profª Nair Marques Pereira, senhora terrivelmente simpática, que participou deste empreendimento. Estas referências, eu as faço para ser coerente comigo mesmo: sei aplaudir e sei criticar. 

Amigos! Celebramos hoje o nosso último encontro. Quero lembrar a vocês que a pintura é uma amante exigente, ela só se dá àqueles que também a ela inteiramente se entregam. A sinceridade do artista é condição para possuí-la. Sinceridade em arte significa uma expressiva resposta à vida. E esta resposta está no meio que também é fim. 

A técnica do pintor seria coisa de pouca valia, se fosse mero jogo de cores que o espírito não transformasse na forma e no conteúdo vivente da obra de arte. Sim, a pintura não é simples jogo de cores, assim poesia não é simples jogo de palavras. Direi que pintura se faz com a cor, com a forma e com o coração. 

Procurei, nestes breves encontros, transmitir a vocês o pouco que tenho, não como o fim de fazer discípulos, mas com o propósito de colocá-los diante da pintura de hoje. Aí estão os quadros! Este é o nosso esforço! Esta é a nossa resposta! Com o decorrer do tempo, nossa voz se tornará cada vez mais nítida, mais poderosa, porque nós falamos a linguagem do nosso século. Eu agradeço a todos que colaboraram na execução do nosso plano (…) E a todos eu ofereço a minha amizade”. 

Assim fundou-se o Atelier Livre. Da Galeria Municipal, em 1962 o espaço ganhou duas salas nos altos do Mercado Público. Lá, os cursos eram orientados por Stockinger, Scarinci e Danúbio Gonçalves. Depois chegou Marcelo Grassmann, que lecionava na Fundação Álvares Penteado (SP) e foi convidado para dar um curso de Litografia. “Compramos a ideia e começou o Atelier Livre da Prefeitura. Foi um sucesso! Fiquei quatro anos nesse cargo. Depois, o Atelier teve várias outras sedes. Mas a ideia original foi do Iberê, os louros são dele”, lembra Istellita. 

Visibilidade para as artes no carnaval de rua
Neste mesmo ano, um grupo de artistas recebeu a missão de criar para o famoso Carnaval de Rua de Porto Alegre, sob a temática dos extraterrestres. O jornal Correio do Povo, de 28 de fevereiro daquele ano, destacou o momento: “O carnaval de rua este ano em Porto Alegre apresentará uma novidade: uma decoração original e até mesmo surpreendente. Ela está sendo realizada por um grupo de artistas plásticos gaúchos, que recebeu, entusiasmado, a missão da Prefeitura Municipal, de projetar e realizar a decoração da Avenida Borges de Medeiros, dos palanques oficiais nos bairros e do trajeto dos blocos e escolas de samba. O motivo da decoração é “Carnaval Interplanetário” e constitui-se de bonecos, marcianos, máscaras mal-encaradas e alegres e discos voadores prateados para receber Momo e a Rainha do Carnaval. Leo Dexheimer, Maria de Lurdes Sanchez, Paulo Peres, Enio Lippmann e Carlos Tenius constituem  o grupo de pintores e gravadores que serão, este ano, os responsáveis pela decoração”. 

A segunda década de existência do Atelier Livre foi marcada por dois acontecimentos: mudanças de local e seu reconhecimento oficial. A terceira mudança ocorreu em julho de 1972, quando deixou os altos do Mercado Público para instalar-se na casa nº 291 da rua Lobo da Costa. No final de 1978, com a transferência para sua atual sede no Centro Municipal de Cultura, na avenida Érico Veríssimo, o espaço alternativo mudou de status. Se transformou numa instituição, integrando diversas oficinas e as artes plásticas ao teatro, à música e à literatura. 

“A ressonância do Atelier Livre no sistema das artes é de significativa importância. Já não cabe apenas interagir com os movimentos do sistema, mas ter a capacidade de propor, no seu dia a dia, uma atitude renovadora. É o espaço para fazer, sentir ou aprender arte. Seu papel é fazer uma atualização das artes plásticas no Rio Grande do Sul. Poderia até, forçando a expressão, dizer que o surgimento do Atelier em 1961 representou para nós o que foi, em nível nacional, a Semana de Arte Moderna. E por essa estrutura muito flexível e muito aberta que ele teve, e mantém até hoje, possibilitou a presença em “confronto de várias tendências artísticas, de vários movimentos com diferentes pressupostos estéticos”, ressalta Zita Possamai, organizadora do livro Atelier Livre: 30 anos

Imagem: Iberê e Istellita da Cunha Knewitz no ateliê do artista, bairro Nonoai, Porto Alegre, 1992. Foto © Mara Kuse