Carlos Vergara: Poética da Exuberância

Curadoria

Luiz Camillo Osorio

24.fev

05.maio.24

Estas duas exposições de Carlos Vergara em Porto Alegre, na Fundação Iberê e no MARGS, são uma verdadeira ocupação Vergara na cidade. Além de gaúcho, ele foi assistente de Iberê, em meados dos anos 1960. Este período foi uma escola sem igual, onde rigor poético e liberdade criativa eram transmitidos em ato. Nestes sessenta anos de produção, sua poética deslocou-se incansavelmente entre linguagens, suportes e atmosferas poéticas.

A exposição começa no período em que foi assistente de Iberê. O foco são trabalhos em papel. O diálogo é evidente, uma vez que a fluência do traço se deixa infiltrar pela carga expressiva do gesto. Tudo neles é urgência. O jovem Vergara misturava certa revolta existencial, típica da sua geração, à luta contra o regime ditatorial que começava a se instalar no Brasil.

Vergara olha em todas as direções, tem interesse genuíno pelo que rola à sua volta, daí sua exuberância plástica e visual. A série do carnaval, no início da década de 1970, começa a partir deste desejo de vida pulsando nas esquinas. O foco desta série é o bloco Cacique de Ramos e seus desfiles pelas ruas do centro do Rio. Evidencia-se aí o enfrentamento, ou melhor, o enlouquecimento das convenções.

Interessante pensar no modo como as séries de Vergara se deslocam no tempo e vão incorporando outras experimentações plásticas. As impressões sobre cobertor de fotos da década de 1970 do Cacique é um desdobramento recente a partir de sua série Liberdade (2010), feita a partir da implosão do complexo prisional da Frei Caneca: marginalidade social, resistência política e energia visual potencializam-se. As linguagens se multiplicam, os tempos se embaralham, a poética de Vergara está sempre se reinventando. O mesmo vemos na série Hüzün, realizada em 2006 na Turquia, entre Istambul e a Capadócia. O sagrado e o profano cruzam-se constantemente em sua obra.

Suas pinturas mais recentes, da série Natureza Inventada, equacionam dois aspectos centrais de sua poética: a adesão ao que se impõe vindo de fora e a necessidade de interferir nele para que ganhe forma e se torne o que é. O desejo de combinar o acaso e a construção. Como de costume, a exuberância visual se impõe. Sem medo dos excessos, ele se apropria de novos suportes e das novas tecnologias, sem abandono das linguagens tradicionais. Seja pelo registro fotográfico, seja por uma pequena impregnação em um lenço de bolso, seja mesmo em uma tela, qualquer coisa que o surpreenda é apropriada, incorporada e recriada.

Luiz Camillo Osorio
Curador

 

A Fundação Iberê e o Museu de Arte do Rio Grande do Sul – MARGS apresentam a exposição de Carlos Vergara simultaneamente, nas duas instituições, com recortes curatoriais complementares.

 

Imagem: Carlos Vergara. Ala das Baianas, da série Carnaval, 1972-1976. Foto © Vicente de Mello